O que cobre: as Aulas 02–05 e o Cap. 2 do livro (§2.1–2.10), isto é, as secções §2, §3 e §4 do Resumo MAP1: lei fundamental, fluido acelerado, manómetros, impulsão em superfícies planas e curvas e Arquimedes.
🧊 2. Hidrostática fundamental (Aula 02 · §2.1–2.6)
2.1 Hidrostática e princípio de Pascal
Ideia
Hidrostática = hidro (água) + estática (repouso). “Repouso” quer dizer que as partículas não se movem umas em relação às outras à escala macroscópica. Sem movimento relativo não há gradientes de velocidade, e portanto não há tensões tangenciais, seja qual for a viscosidade (1.7). Sobra só a pressão, que empurra por igual em todas as direções.
Por isso a Hidrostática aplica-se também a fluidos em movimento de corpo rígido: recipientes em movimento uniforme ou uniformemente acelerado (2.2), ou a rodar com velocidade angular constante (este último caso está fora do MAP1).
Armadilha
O princípio de Pascal não exige repouso absoluto, só τ=0. Um tanque num camião a acelerar continua a cumpri-lo.
“A pressão é igual em todas as direções” é num ponto. De ponto para ponto a pressão varia (2.3).
Pressão e princípio de Pascal (Cardoso et al., §2.1–2.2)
p=limδS→0δSδN=dSdN[Pa](δN=forc¸a normal sobre δS)
A pressão é uma grandeza escalar: o módulo da força normal (força de pressão) por unidade de área num dado plano do fluido.
Princípio de Pascal: num ponto de um fluido homogéneo (propriedades iguais de ponto para ponto) em repouso, a pressão tem o mesmo valor em todas as direções.
Demonstração (livro). Toma-se um prisma triangular elementar, com a face inclinada de comprimento δs a fazer o ângulo θ com a horizontal:
segundo x:pxδyδssinθ−pnδyδssinθ=0⇒pn=pxsegundo z:pzδyδscosθ−pnδyδscosθ−peso: infiniteˊsimo de ordem superior21γδyδs2cosθsinθ=0δs→0pn=pz
Logo pn=px=pz; rodando o prisma 90° em torno de z, também pn=py. A única hipótese usada é a ausência de tensões tangenciais.
Quando usar
Na pergunta conceptual “porque é que a hidrostática vale para um recipiente acelerado?”, e para justificar que se pode falar de “a pressão num ponto”, sem indicar direção.
2.2 Equações de Euler: fluido em movimento de corpo rígido
Ideia
Aplica-se F=ma a um cubinho de fluido. As forças são o peso e a diferença de pressões entre faces opostas. Num fluido acelerado, a pressão tem de “empurrar” o cubinho: a pressão aumenta no sentido contrário à aceleração. É o que sente quem vai num carro a arrancar: é empurrado para trás contra o banco.
Em repouso, a gravidade “aponta” para baixo e as superfícies de igual pressão (isobáricas) são horizontais.
Acelerado, o fluido sente uma gravidade aparenteg−a, e as isobáricas (incluindo a superfície livre) ficam perpendiculares a g−a, inclinadas e mais altas atrás.
Armadilha
Sinal: a pressão aumenta no sentido de g−a, ou seja, para baixo e para trás (contra a). Errar este sentido troca qual dos ramos/paredes tem mais pressão.
Conservação do volume: num recipiente fechado ou num tubo de secção constante, o que sobe de um lado desce do outro. É a segunda equação que faltava para fixar a posição da superfície livre (Ex 2.1).
z é vertical ascendente; o peso atua segundo −z.
Equações de Euler (hidrostática generalizada) (Cardoso et al., §2.4)
Paralelepípedo δxδyδz, pressões nas faces por Taylor de 1.ª ordem, aceleração constante a=(ax,ay,az), no campo gravítico. Segundo x:
(p−∂x∂p2δx)δyδz−(p+∂x∂p2δx)δyδz=ρδxδyδzax⇒∂x∂p=−ρax⎩⎨⎧∂x∂p=−ρax∂y∂p=−ρayρg+∂z∂p=−ρaz⟺g=(0,0,−g)∇p=ρ(g−a)ouρg−∇p=forc¸a de ineˊrcia por unid. de volumeρaIsobáricas (dp=0): −ρaxdx−ρ(g+az)dz=0. No plano xz:
tanβ=dxdz=−g+azaxaz=0tanβ=−gax
As isobáricas são perpendiculares a g−a, e a pressão aumenta no sentido de g−a. Os slides tratam só a aceleração linear horizontal (az=0). O livro introduz ainda as forças de massaf por unidade de massa, com ρf−∇p=0, das quais o peso é o caso usual. Estas equações voltam no Cap. 5.
Passos para um fluido com aceleração linear
Fixar eixos (x no sentido de a, z para cima) e escrever ∂p/∂x=−ρax e ∂p/∂z=−ρ(g+az).
Integrar:p(x,z)=C−ρaxx−ρ(g+az)z.
Fixar C com um ponto de pressão conhecida (superfície livre, orifício aberto: p=0 relativa).
Inclinação da superfície livre: tanβ=−ax/(g+az).
Se a posição da superfície livre não estiver fixada por um ponto, usar a conservação do volume de líquido.
Calcular as pressões pedidas e verificar se a superfície livre sai do recipiente (perda de líquido).
Quando usar
Sinais no enunciado: “camião”, “tanque que acelera”, “acelerómetro”, “aceleração máxima sem perda de líquido”, “inclinação das isobáricas”.
Exercício resolvido (Ex 2.1 do livro / Aula 02)
Para medir a aceleração de um corpo móvel usa-se o tubo de vidro ABCD, de secção pequena e uniforme, parcialmente cheio de líquido e aberto em A e D. O tubo é solidário com o corpo, que acelera com a no sentido de B para C (de AB para DC).
Ramos verticais AB (atrás) e DC (à frente), com altura b; distância horizontal entre ramos 4b.
Em repouso, o líquido está à altura b/3 nos dois ramos.
Desprezando a capilaridade e a tensão superficial, determine a aceleração máxima que se pode medir sem perda de líquido.
Resolução passo-a-passo
1. Corpo rígido: as isobáricas são perpendiculares a g−a, com tanθ=a/g. Os dois meniscos estão à patm, logo estão na mesma isobárica. O líquido sobe no ramo de trás (AB) e desce no da frente.
2. Primeira fase (os dois meniscos nos ramos verticais): sobe Δ atrás e desce Δ à frente (secção constante):
4b2Δ=ga
O ramo da frente esvazia quando Δ=b/3, ou seja, a=g/6. Nesse instante o ramo de trás está a 2b/3<b: ainda não há perda de líquido.
3. Segunda fase: para a>g/6, o menisco da frente recua para dentro do troço horizontal. A perda dá-se quando o ramo de trás fica cheio até A (altura b).
4. Conservação do volume (em comprimentos de tubo): inicialmente b/3+4b+b/3=4b+2b/3. No limite, com o ramo de trás cheio (b), o comprimento ocupado no troço horizontal é L=4b+2b/3−b=11b/3. O menisco da frente está, portanto, a b/3 do cotovelo C.
5. Isobárica que une os dois meniscos: desnível b numa distância horizontal 11b/3:
ga=tanθ=11b/3b=113⇒amax=113g≈2,67m/s2(resolução do livro)
Lição
Há duas leituras possíveis do limite:
g/6≈1,63 m/s² é o limite enquanto os dois meniscos estão nos ramos verticais;
3g/11≈2,67 m/s² é o limite sem perda de líquido, que é o que o enunciado pede e a resposta do livro.
Lição transferível: num problema de “aceleração máxima”, seguir a superfície livre fase a fase, com a conservação do volume, até ao critério que o enunciado pede de facto.
Exercício resolvido (Prob 2.3 do livro)
Um tanque prismático totalmente cheio de água (ℓx=ℓy=1 m, ℓz=0,5 m) tem um pequeno orifício a meio do topo, aberto à atmosfera, e acelera horizontalmente com ax=1 m/s². Origem em B (aresta do fundo, atrás), x no sentido de a, z para cima. As arestas são A (topo, atrás), B (fundo, atrás), C (fundo, à frente) e D (topo, à frente). Determine:
a) o ângulo θ das isobáricas com a horizontal;
b) as pressões em A, B, C e D;
c) o campo p(x,z).
Resolução passo-a-passo
1. a) Inclinação:tanθ=gax=9,81⇒θ=5,83°2. c) Campo de pressões:∂p/∂x=−ρax=−1000 e ∂p/∂z=−ρg=−9800, logo p=C−1000x−9800z. No orifício, (x,z)=(0,5;0,5) e p=0, o que dá C=500+4900=5400:
p(x,z)=5400−1000x−9800z[Pa]3. b) Pressões nas arestas:pA(0;0,5)=500PapB(0;0)=5400PapC(1;0)=4400PapD(1;0,5)=−500Pa[resolução própria]. Bate com o livro em θ, no campo (c) e em pA, pC, pD. ⚠️ O livro dá pB=4900 Pa, o que contradiz o seu próprio campo: pB=pA+ρg×0,5=5400 Pa. É gralha do livro. (A Fig. 2.40 do livro indica também ax=0,5 m/s², mas o enunciado e a solução usam 1 m/s².)
Lição
Com o tanque cheio e fechado, a superfície livre não existe. É o ponto aberto (o orifício) que fixa a constante, e a isobárica p=0 passa por ele. Atrás do orifício a pressão no topo é positiva; à frente é negativa (depressão em D).
2.3 Equação fundamental da Hidrostática
Ideia
Com a=0, a pressão só depende da profundidade. Cada metro que se desce acrescenta o peso de uma coluna de 1 m de fluido sobre cada m². Em água, +9,8 kPa por metro. Resultado: num líquido em repouso, a soma p/γ+z (cota piezométrica) é a mesma em todos os pontos. O que se “perde” em cota ganha-se em pressão.
Armadilha
Errata do slide 8: na 2.ª linha do sistema aparece "∂p/∂z=0". Deve ler-se ∂p/∂y=0 (está correto no slide 9).
p1−p2=γh só vale com ρ constante: líquidos, ou gases em pequenos desníveis. Num gás com grandes diferenças de cota (atmosfera, poço de mina) é preciso conhecer ρ(p) ou ρ(z) e integrar (Ex 2.3, Prob 2.2).
h é sempre vertical. Num tubo inclinado, mede-se a diferença de cotas e não o comprimento ao longo do tubo.
A pressão é a mesma em pontos à mesma cota só se estiverem ligados pelo mesmo fluido contínuo.
Lei fundamental da Hidrostática (Cardoso et al., §2.3)
Se o fluido for um gás com grandes desníveis: escrever dp/dz=−ρg com a lei ρ(p) ou ρ(z) dada, separar as variáveis e integrar.
Quando usar
É a ferramenta-base de toda a hidrostática: manómetros, reservatórios, impulsões (§3–§4). O caso compressível só aparece quando o enunciado fala de atmosfera, altitude, poço profundo, gás perfeito ou temperatura variável.
Exercício resolvido (Ex 2.3 do livro)
Calcule a pressão do ar a 3 km de altitude, admitindo uma atmosfera isentrópica, ρ/ρ0=(p/p0)1/k com k=1,4, e ao nível do mar p0=1,012×105 Pa e ρ0=1,204 kg/m³. Qual é o erro da hipótese de ar incompressível?
Resolução passo-a-passo
1. Equação diferencial:dzdp=−ρg=−ρ0g(p0p)1/k.
2. Separar e integrar de (0,p0) a (z,p):
∫p0pp−1/kdp=−p01/kρ0g∫0zdz⇒p=[p0kk−1−kk−1p01/kρ0gz]k−1k3. Valores:kk−1=0,2857; p00,2857=26,92; p01/k=3759,5; ρ0gz=1,204×9,8×3000=35398 Pa:
p=[26,92−0,2857×3759,535398]3,5=24,233,5⇒p≈70,0kPa4. Hipótese incompressível:p=p0−ρ0gz=101200−35398=65802 Pa → erro 70,070,0−65,8≈6% (por defeito).
(resolução do livro, com correção numérica). O livro chega a 70,79 kPa e a um erro de 7,05 %. Isso acontece porque na fórmula numérica usa p0=1,02×105 (gralha) em vez de 1,012×105. O método é o do livro.
Lição
Para 3 km de ar, a hipótese incompressível já erra ~6 %: o ar fica menos denso com a altitude, por isso a pressão diminui mais devagar do que a reta p0−ρ0gz. Em desníveis de dezenas de metros o erro é desprezável, e é por isso que nos manómetros se usa γgaˊsh≈0.
Exercício resolvido (Prob 2.2 do livro)
Um veio de mina vertical, com 4000 m, tem ar em repouso. A temperatura aumenta linearmente de 20 °C à superfície até 60 °C no fundo, e a pressão à superfície é 100 kPa. Calcule a pressão no fundo:
a) com ar incompressível (ρ=1,2 kg/m³);
b) com ar como gás perfeito, p=ρRsT, Rs=287,05 J kg⁻¹ K⁻¹ (pressões absolutas, T em K).
Resolução passo-a-passo
1. a) Incompressível:p=100000+1,2×9,8×4000⇒p=147,04kPa2. b) Gás perfeito. Com a profundidade s medida para baixo, dp/ds=+ρg e ρ=p/(RsT), com T=293,15+0,01s (K):
∫p0ppdp=Rsg∫04000293,15+0,01sds⇒lnp0p=0,01Rsgln293,15333,15=3,4140×0,12791=0,4367p=100×e0,4367⇒p≈154,76kPa[resolução própria], que bate com a solução do livro (147,04 e 154,76 kPa).
Lição
Receita do caso compressível: dp=±ρgdz + lei de estado + separação de variáveis. Aqui o ar comprime-se ao descer e fica mais denso, por isso a pressão cresce mais do que no caso incompressível. É o efeito inverso do da atmosfera (Ex 2.3), visto do outro lado.
2.4 Pressão absoluta e pressão relativa; unidades; barómetro
Ideia
A pressão pode ser medida a partir do vácuo (absoluta) ou a partir da atmosfera (relativa). A atmosfera atua em todo o lado e anula-se nas forças, por isso em engenharia trabalha-se quase sempre com pressões relativas: a superfície livre de um reservatório aberto tem p=0. A pressão pode também exprimir-se como a altura de uma coluna de líquido que a equilibra: metros de coluna de água (m c.a.) ou mm de mercúrio (mmHg).
Armadilha
A pressão absoluta nunca é negativa. A relativa pode sê-lo, mas nunca abaixo de −patm≈−10,33 m c.a. Na prática o limite é ainda mais alto: quando a pressão absoluta chega à tensão de vapor tv, o líquido entra em cavitação (§1.8).
Ao comparar com tv (que é absoluta), é preciso converter: pabs=prel+patm.
Não misturar as duas referências na mesma equação de equilíbrio.
h=p/γ depende do líquido: a mesma pressão corresponde a 10,33 m de água e a apenas 0,76 m de mercúrio.
Referências e unidades (Cardoso et al., §2.4–2.5)
relativa (manomeˊtrica)prel=absoluta≥0pabs−≈1,012×105Papatmaltura de colunah=γp
Barómetro de mercúrio: um tubo fechado no topo, cheio de Hg e invertido numa tina. No topo fica praticamente vácuo, porque a tensão de vapor do Hg é muito baixa. Mede pressão absoluta:
pa=γHgh(+tv,Hg≈0)⇒h=γHgpa
Passos para lidar com referências de pressão
Ver em que referência vêm os dados: “manómetro”, “relativa” ou “efetiva” → relativa; “barómetro”, “absoluta” ou “gás perfeito” → absoluta.
Escolher uma referência para todo o problema (por defeito, a relativa: superfície livre aberta com p=0).
Aplicar a lei fundamental (§2.3) desde o ponto conhecido.
Se o resultado tiver de ser comparado com tv ou entrar numa lei de gases, somar patm.
Converter para m c.a. dividindo por γw=9800 N/m³ (ou por γ do líquido pedido).
Quando usar
Em qualquer resposta que peça a pressão “em metros de coluna de água”, e sempre que surja uma pressão negativa (sifões, pontos acima da superfície livre, aspiração de bombas). Nesse caso verifica-se se a pressão absoluta continua acima de tv.
Exercício resolvido (Prob 2.5 do livro / Problema 2.1 da Aula 02)
Um sifão está cheio de óleo (γo=8330 N/m³, d=0,85) em repouso e liga a um reservatório aberto. O ponto A (topo do sifão) está 2,50 m acima da superfície livre do reservatório e o ponto B está 0,50 m acima dela. Calcule as pressões em A e B, em Pa e em m c.a.
Resolução passo-a-passo
1. Referência: superfície livre aberta → p=0 (relativa). Os pontos estão acima dela, por isso a pressão diminui ao subir.
2. Ponto A (sobe 2,50 m dentro do mesmo óleo contínuo):
pA=0−γo×2,50=−8330×2,5⇒pA=−20825Pa≈−2,08×104Pa=−2,125m c.a.3. Ponto B (sobe 0,50 m):
pB=−8330×0,5⇒pB=−4165Pa=−0,425m c.a.4. Verificação: de B a A sobe-se 2,00 m, logo pA=pB−γo×2,00=−4165−16660=−20825 Pa ✓.
5. Em m c.a.: divide-se por γw=9800 (e não por γo): −20825/9800=−2,125 m.
[resolução própria], que bate com a solução do livro (pA=−2,08×104 Pa, pB=−4165 Pa).
Lição
Num sifão, todo o troço acima da superfície livre está em depressão, e o ponto mais alto é o mais crítico. Em pressão absoluta, pA=101200−20825≈80 kPa, muito acima de tv, por isso não há cavitação. Se o sifão fosse mais alto (perto de 10,33/0,85≈12 m de óleo), a coluna “partia” (§1.8). Atenção: a numeração dos slides (Problema 2.1) é diferente da do livro (Prob 2.5).
2.5 Manómetros
Ideia
Um manómetro é um “caminho” de fluidos entre o ponto onde se quer a pressão e um ponto de pressão conhecida (a atmosfera ou outro ponto). Percorre-se esse caminho aplicando a lei fundamental troço a troço: ao descer soma-se γΔz, ao subir subtrai-se. Nas superfícies de separação a pressão é a mesma dos dois lados. O piezómetro é o caso mais simples, com um só líquido. O tubo em U com um líquido manométrico denso (γm, normalmente Hg) mede pressões maiores ou negativas e serve também para gases. O diferencial mede a diferença entre dois pontos. O Bourdon é o aparelho comercial, de mostrador.
Armadilha
“Mesma cota ⇒ mesma pressão” só vale dentro do mesmo fluido contínuo. Um ponto no Hg e outro na água à mesma cota não têm a mesma pressão.
Os desníveis (h, Δh) medem-se sempre na vertical, mesmo em ramos inclinados.
Nos manómetros com vários líquidos, um líquido intermédio mais leve (p. ex. óleo) que esteja “por cima” no percurso entra muitas vezes com sinal − (Ex 2.2). Deve-se seguir o percurso, e não decorar sinais.
Gás na conduta:γgaˊsh≈0, por isso o gás transmite a pressão sem variação.
Quando o manómetro se desloca, todos os meniscos se movem. Se a secção é constante, cada desnível de um ramo em U varia 2y quando cada menisco se desloca y (conservação do volume).
Dúvida no livro, Prob 2.1 (bomba com manómetro diferencial de Hg, z1−z2=800 mm): a solução do livro (106,6 kPa =10,88 m c.a. =13,6×0,8) parece ignorar a coluna de água. Com (γm−γ)Δh obtém-se 12,6×0,8=10,08 m c.a. ≈98,8 kPa. A confirmar com o docente.
Fórmulas dos manómetros (Cardoso et al., §2.5)
Piezómetro (tubo aberto ligado por uma tomada de pressão):
p=do lıˊquido da condutaγaltura acima do pontoh
Mede no eixo ou em qualquer ponto da secção (a distribuição é hidrostática). Não serve para gases, para pressões negativas, nem para pressões muito altas (o tubo teria de ser enorme).
Manómetro em U (líquido manométrico γm; ponto 4 na conduta, a h acima da superfície de separação 3; desnível Δh entre as superfícies do líquido manométrico):
p1=0,p2=γmΔh,p3=p2,p4=p3−γh⇒p4=lıˊquido manomeˊtricoγmΔh−lıˊquido da condutaγh
Gás na conduta:p4≈γmΔh.
Só um líquido (sem líquido manométrico, ou pressão negativa num líquido): pode usar-se γm=γ, e então p4=γ(z1−z4).
Manómetro diferencial (líquido γ nos dois ramos, líquido manométrico γm por baixo):
p1−p2=(γm−γ)Δh+γ(z2−z1)⟺diferenc¸a de cotas piezomeˊtricas(γp1+z1)−(γp2+z2)=(γγm−1)Δh
Regra do percurso:pfim=pinıˊcio+troc¸os∑γi(>0a descerzinıˊcio troc¸o−zfim troc¸o)
Manómetro de Bourdon: tubo metálico curvo e achatado que tende a “endireitar” com a pressão e move um ponteiro. Lê pressão relativa e é o manómetro comercial habitual.
Passos para resolver um manómetro
Fazer um esquema e numerar todos os pontos: o ponto pedido, cada superfície de separação e a extremidade aberta.
Partir de um ponto de pressão conhecida (extremidade aberta: p=0).
Percorrer o caminho troço a troço: em cada fluido, +γiΔz se desce, −γiΔz se sobe.
Nas superfícies de separação, passar ao fluido seguinte com a mesma pressão.
Se um ramo contiver gás, desprezar γgaˊsΔz.
Se houver deslocamento dos meniscos, escrever a conservação do volume (secção constante: subir y num ramo ⇔ descer y no outro) e somar a variação a cada desnível.
Converter o resultado para as unidades pedidas (Pa, kPa, m c.a.).
Quando usar
Sempre que o enunciado tenha tubos em U, piezómetros, reservatórios ligados por tubos ou leituras de “desnível”. O diferencial aparece entre dois pontos de uma conduta (bombas, contadores, perdas de carga) e dá logo a diferença de cotas piezométricas, que reaparece mais tarde no escoamento.
Exercício resolvido (Ex 2.2 do livro)
Um reservatório esférico contém gás e está ligado a um manómetro com três líquidos em série (Fig. 2.7 do livro). Desde o gás: mercúrio (d=13,6) entre os meniscos D e C (C acima de D); óleo (d=0,8) entre C e B, com C acima de B (desnível x); água (d=1,0) entre B e a extremidade aberta A. Os tubos têm secção constante. Calcule a variação de pressão do gás que faz cada menisco deslocar-se y=2,5 cm.
Resolução passo-a-passo
1. Percurso de A (aberto, p=0) até ao gás:pgaˊs=desce na aˊguaγw(zA−zB)sobe no oˊleo, de B a C−γox+desce no HgγHg(zC−zD)2. Deslocamento: quando a pressão do gás aumenta, cada menisco desloca-se y=0,025 m. Como os tubos têm secção constante, cada um dos três desníveis aumenta 2y=0,05 m.
3. Variação:Δp=γw(2y)(dw−do+dHg)=9800×0,05×(1−0,8+13,6)⇒Δp=6762Pa≈6,76kPa(resolução do livro).
Lição
O óleo entra com sinal − porque, no percurso, se sobe dentro dele. Quem dá o sinal é o percurso, não a ordem dos líquidos. Num problema com deslocamento de meniscos, a incógnita é a variação de cada desnível (2y), e as cotas absolutas deixam de interessar.
Exercício resolvido (Ex 2.4 do livro)
Uma conduta transporta óleo (d=0,9). Um manómetro em U de mercúrio está ligado à conduta: a superfície de separação óleo/Hg (C) está 3,00 m abaixo do ponto X da conduta, e a superfície livre do Hg no ramo aberto (A) está 0,375 m acima do ponto B do mesmo ramo, à cota de C. Calcule a pressão em X (a que leria um manómetro de Bourdon aí instalado).
Resolução passo-a-passo
1. Ramo aberto:pA=0; desce-se 0,375 m no Hg até B:
pB=γHg×0,375=13,6×9800×0,375=49980Pa2. Mesma cota, mesmo fluido contínuo (Hg):pC=pB=49980 Pa.
3. Sobe-se 3,00 m no óleo, de C até X:
pX=49980−0,9×9800×3,00=49980−26460⇒pX=23520Pa≈23,5kPa=2,40m c.a.(resolução do livro).
Lição
O passo crítico é o 2: B e C só têm a mesma pressão porque estão ambos no mercúrio, ligados sem interrupção. A coluna de óleo não é desprezável (26 kPa, mais do que o resultado final). Só a coluna de um gás se despreza.
🧱 3. Impulsão em superfícies planas (Aula 03 · §2.7–2.8)
Um fluido em repouso empurra cada bocado δS de uma parede com uma força pδS, normal à parede e do fluido para a parede. Somadas, estas forças dão em geral uma força e um binário. Quando o binário se pode eliminar e sobra uma força única, essa força chama-se impulsão hidrostática (ou só impulsão), Π. Isto só acontece em quatro casos (Cardoso et al., §2.7):
Superfícies planas: as forças elementares são paralelas.
Calotes esféricas: as forças são concorrentes, porque todas as normais passam pelo centro da esfera.
Corpos imersos ou flutuantes: a resultante é vertical (Arquimedes, §4.1).
Superfícies cilíndricas limitadas por secções planas normais às geratrizes e mergulhadas num único fluido (Fig. 2.10). Há duas situações:
geratriz horizontal e diretriz qualquer: a força de cada faixa aplica-se na sua linha média, e as forças são concorrentes por trechos;
diretriz circular: as resultantes elementares aplicam-se ao longo de uma geratriz única e formam um sistema de forças paralelas, que passa pelo eixo.
Numa superfície horizontal todos os pontos estão à mesma profundidade, por isso a pressão é uniforme e a impulsão é simplesmente pressão × área.
Armadilha
Paradoxo hidrostático: a impulsão no fundo de um recipiente é pS=γhS, e depende só da profundidade e da área da base, não do volume nem do peso do líquido. Recipientes com a mesma base e a mesma altura de líquido têm a mesma força no fundo, mesmo pesando coisas diferentes (Ex 2.5).
A impulsão aponta do fluido para a superfície. Se há fluido dos dois lados, calcula-se cada lado e subtrai-se.
Impulsão numa superfície plana horizontal (Cardoso et al., §2.8)
Π=uniforme=γhpaˊrea molhadaSDireção: normal ao plano, do fluido para a superfície. Ponto de aplicação: o centroide (centro geométrico) da superfície.
Centroide (nota 5 do livro): é o centro geométrico da figura. Coincide com o centro de massa se a densidade for uniforme, e com o centro de gravidade se, além disso, o campo gravítico for uniforme.
Passos para a impulsão numa superfície horizontal
Medir a profundidade verticalh da superfície até à superfície livre (ou até à superfície livre equivalente, se houver gás pressurizado).
Calcular a pressão uniforme p=p0+γh (com p0=0 em pressões relativas, superfície aberta à atmosfera).
Multiplicar pela área molhada: Π=pS.
Aplicar a força no centroide, normal à superfície e do fluido para a superfície. Se houver fluido dos dois lados, fazer a diferença.
Quando usar
Fundos de reservatórios, tampas horizontais, faces superior/inferior de corpos. Sinal típico: “fundo”, “tampa de nível”, “laje”.
Exercício resolvido (Ex 2.5 do livro — paradoxo hidrostático)
Três recipientes têm bases horizontais com a mesma áreaS e a mesma alturah de líquido (γ): (a) paredes verticais; (b) paredes que abrem para cima (mais volume); (c) paredes que fecham para cima (menos volume). Mostre que a impulsão F na base é igual nos três, e relacione a impulsão total nas paredes, Πt, com o peso G do líquido.
Resolução passo-a-passo
1. Base:p=γh é igual nas três bases, logo F=γhS é igual nos três.
2. Pesos:Gi=γ∀i, com G(c)<G(a)<G(b).
3. Paredes laterais:
(a) verticais: impulsão sem componente vertical, logo Πt=F=G(a);
(b) a abrir: o líquido está por cima das paredes e empurra-as para baixo com G(b)−G(a), logo Πt=F+G(b)−G(a)=G(b);
(c) a fechar: o líquido está por baixo das paredes e empurra-as para cima com G(a)−G(c), logo Πt=G(c).
Πt=Gem todos,G(c)<F=G(a)<G(b)(resolução do livro).
Lição
O recipiente, no seu todo, suporta sempre o peso do líquido. Mas a força no fundo é γhS: as paredes inclinadas “aliviam” ou “carregam” o fundo. Nunca calcular a força no fundo como “peso do líquido” sem verificar que as paredes são verticais.
3.2 Superfície plana inclinada: módulo da impulsão
Ideia
Numa placa inclinada, a pressão cresce linearmente com a profundidade. Somar pδS “por fatias” dá um resultado muito simples: a impulsão é a pressão no centroide vezes a área. É como se a placa inteira estivesse à profundidade do seu centroide. A inclinação θ só entra através de h0.
Geometria (Fig. 2.11 do livro): o plano da placa corta a superfície livre segundo o eixo Ox. Mede-se yao longo da linha de maior declive, a partir de Ox. Então a profundidade de um ponto é h=ysinθ.
Armadilha
h0 é a profundidade (vertical) do centroide da superfície, e não a do centro de impulsão nem a do bordo.
A fórmula exige γ constante (um só fluido homogéneo) e pressão nula na superfície livre. Com um gás pressurizado por cima ou dois líquidos, usa-se o diagrama de pressões (§3.4) ou a superfície livre equivalente (§3.5).
Módulo da impulsão numa superfície plana (Cardoso et al., §2.8, eqs. 2.29–2.35)
Π=∫SpdS=∫Sγ(ysinθ)dS=γsinθ=Sy0∫SydSΠ=γy0sinθh0S=pressa˜o no centroidep0SDireção: normal à placa, do fluido para a placa. Unidades: N, com γ em N/m³, h0 em m e S em m².
3.3 Centro de impulsão; teorema de Steiner; tabela de I_G
Ideia
A impulsão não atua no centroide: as fatias mais fundas levam mais pressão, por isso a força puxa o ponto de aplicação para baixo. Esse ponto, o centro de impulsão (CI), obtém-se igualando o momento da força única ao momento das forças distribuídas. Quanto mais funda está a placa, mais uniforme parece a pressão e mais o CI se aproxima do centroide (y′→0 quando y0→∞).
Armadilha
y0, Y e y′ medem-se ao longo do plano da placa (linha de maior declive), a partir da linha onde o plano corta a superfície livre: y0=h0/sinθ. Não são profundidades.
IG é em relação ao eixo pelo centroide paralelo a Ox (perpendicular à linha de maior declive), e não em relação a um eixo qualquer.
Numa superfície horizontal o CI coincide com o centroide; numa não horizontal fica sempre abaixo dele.
Gralhas da Tabela 2.1 do livro (p. 54 do PDF): na área do segmento circular está αR2 (é a área do setor); no IG da elipse está 4πa3b (com b vertical deve ser 4πab3); a posição de G no trapézio (3b1+b2 em vez de 2b1+b2) e o último denominador do IG do segmento (2α−3sin2α em vez de 2α−sin2α) também têm gralhas. A tabela abaixo já está corrigida. A posição de G do segmento no livro, R6α−3sin2α4sin3α−Rcosα, tem outra forma mas é algebricamente igual à da tabela; não é gralha.
Centro de impulsão (Cardoso et al., §2.8, eqs. 2.36–2.43)
Momentos em relação a Ox:ΠY=∫SypdS=γsinθIx∫Sy2dS⇒Y=y0SIxLagrange–Steiner (eixos paralelos): Ix=IG+Sy02, donde
Y=y0+Sy0IG⟹y′=Y−y0=aˊreaSmedido no planoy0eixo por G, paralelo a OxIG>0y′ é a distância, medida no plano, do centroide ao CI, que fica abaixo do centroide.
Posição lateral:X=Sy01∫SxydS (produto de inércia). Se a superfície é simétrica em relação a uma linha de maior declive, o CI está nesse eixo de simetria (é o caso de quase todos os problemas).
Tabela 2.1 — área, centroide e IG de figuras planas (Cardoso et al., §2.8; eixo GG' horizontal, paralelo à base)
Verificação: com α=π/2 o segmento dá o semicírculo (π/8−8/(9π)=0,1098). Os slides (Aula 03, slide 11) trazem só as cinco primeiras linhas.
Passos para a impulsão numa superfície plana (um só líquido)
Identificar a superfície livre (pressão relativa nula) e a linha Ox onde o plano da placa a corta.
Calcular a área S, a posição do centroide G e o IG (Tabela 2.1).
Profundidade do centroide h0 → Π=γh0S.
Distância no plano y0=h0/sinθ (parede vertical: y0=h0) → y′=IG/(Sy0).
Localizar o CI: a y′abaixo de G, ao longo da placa, no eixo de simetria.
Se pedirem componentes: Πh=Πsinθ e Πv=Πcosθ (com θ o ângulo da placa com a horizontal).
Se a placa roda numa articulação, escrever o equilíbrio de momentos nessa articulação com o braço do CI.
Quando usar
“Comporta plana”, “tampa”, “visor plano”, “parede inclinada”, “força para manter fechada”, “posição do centro de impulsão”. Se a placa é retangular com dois lados horizontais, o diagrama de pressões (§3.4) costuma ser mais rápido; se é circular, triangular, etc., usa-se esta fórmula com a Tabela 2.1.
Exercício resolvido (Prob 2.4 da Aula 03 = Prob 2.7 do livro)
Na parede BC de um reservatório com água há uma tampa metálica quadrada com 1,00 m de lado. A parede AB é vertical, com A na superfície livre e AB=2,00 m. A tampa BC parte de B, inclinada a 45° com a horizontal, e desce para o interior até ao fundo; a água está por cima dela. A aresta superior da tampa, de nível, está 2,00 m abaixo da superfície livre. Determine: a) os módulos da impulsão na tampa e das suas componentes horizontal e vertical; b) a posição do centro de impulsão.
Resolução passo-a-passo
1. Geometria:h1=2,00 m (aresta B); h2=2+1×sin45°=2,707 m (aresta C); centroide a h0=2+0,5sin45°=2,354 m; S=1,00 m².
2. Impulsão:Π=γh0S=9,8×2,354×1⇒Π≈23,07kN(normal aˋ tampa)3. Componentes (placa a 45°): Πh=Πv=Πcos45°≈16,31kN.
Verificação: Πh=γh0Sv=9,8×2,354×0,7071=16,31 kN (impulsão na projeção vertical, §4.3), e Πv= peso da água por cima da tampa =9,8×22+2,707×0,7071=16,31 kN, para baixo.
4. Centro de impulsão:y0=h0/sin45°=3,328 m; IG=1×13/12=0,0833 m⁴;
y′=1×3,3280,0833=0,025m⇒CI a 0,525 m de B, ao longo da tampa
(profundidade 2+0,525sin45°≈2,371 m), no eixo de simetria da tampa. [resolução própria], que bate com a solução do livro (Π=23064,8 N, Πh=Πv=16309,3 N, CI a 0,475 m de C).
Lição
y′ é pequeno (2,5 cm numa tampa de 1 m) porque a tampa está funda (y0=3,3 m). E y0 mede-se ao longo do plano, h0/sinθ, não na vertical: usar h0 dava y′=0,035 m, errado. As componentes saem de graça: a horizontal é a impulsão na projeção vertical e a vertical é o peso do líquido por cima, o que antecipa a §4.
Exercício resolvido (Ex 2.6 do livro — comporta escorada por barras)
Uma comporta, com o peso desprezável, tem um troço vertical CA (C fica acima da superfície livre; a parte molhada de CA tem 2,00 m) e um troço inclinado AO que desce de A até à articulação O no fundo, com 4,00 m na vertical e 3,00 m na horizontal (O a 6 m de profundidade). A comporta é escorada por barras AB, perpendiculares a AO em A (B no terreno, 5,33 m à direita da vertical de A), espaçadas de 6 m. A água está do lado da comporta oposto às barras. Calcule a força de compressão em cada barra.
Resolução passo-a-passo
Analisa-se um troço com 6 m de largura. AO=42+32=5 m, sinθ=0,8.
1. Troço CA (vertical):S=12 m², h0=1 m:
ΠCA=9800×12×1=117,6kN;YCA=1+12×16×23/12=1,333m
braço em relação a O (vertical): 6−1,333=4,667 m.
2. Troço AO (inclinado):S=6×5=30 m², h0=2+4/2=4 m:
ΠAO=9800×30×4=1176kN
No plano de AO: y0=h0/sinθ=5,0 m; IG=6×53/12=62,5 m⁴; YAO=5+30×562,5=5,417 m. O ponto O está a 6/0,8=7,5 m de Ox ao longo do plano, logo o braço é 7,5−5,417=2,083 m.
3. Momentos em O (a barra atua em A, perpendicular a AO, braço OA=5 m):
117,6×4,667+1176×2,083−FAB×5=0⇒FAB≈600kN por barra4. 2.º método (diagrama de pressões, §3.4). Em A, pA=9800×2=19600 Pa; em O, pO=58800 Pa. Por troços:
AO: o retângulo pA×5×6=588 kN fica a 2,5 m de O; o triângulo 21(pO−pA)×5×6=588 kN fica a 5/3=1,667 m de O.
CA: o triângulo 21pA×2×6=117,6 kN fica a 4+2/3=4,667 m de O.
5FAB=588×2,5+588×1,667+117,6×4,667⇒FAB=599,8kN(resolução do livro, pelos dois métodos: 599,76 kN).
Lição
Uma comporta “quebrada” divide-se em troços planos, cada um com a sua impulsão e o seu CI. Os braços medem-se na direção perpendicular à força: para o troço inclinado, isso é a distância ao longo do próprio plano.
3.4 Método do diagrama de pressões
Ideia
Para um retângulo com dois lados horizontais (largura b), a pressão só varia ao longo da linha de maior declive. Então a impulsão é largura × área do diagrama de pressões, e o CI está na linha do centroide desse diagrama. É “somar por fatias” feito à vista. O diagrama é um trapézio (ou triângulo, se começa na superfície livre), que se parte em retângulo + triângulo, cada um com a sua força e o seu ponto de aplicação.
Armadilha
Errata do slide 13 (Aula 03): o slide escreve y′=12γh1+h2(h1−h2)2. O γ está a mais (a fórmula ficava dimensionalmente errada) e falta sinθ. A forma correta, que sai de y′=IG/(Sy0), é a da caixa abaixo.
O “comprimento” do diagrama é o lado da placa, L=(h2−h1)/sinθ, e não o desnível h2−h1 (exceto em paredes verticais).
Com gás pressurizado, a zona do gás tem diagrama retangular (pressão constante), e só abaixo dele começa o triângulo.
Impulsão pelo diagrama de pressões (Cardoso et al., §2.8, eqs. 2.44–2.46)
Π=b∫y1y2pdy=pressa˜o meˊdia2p1+p2L(y2−y1)b=2sinθγb(h22−h12)Posição do CI (centroide do trapézio de pressões, medido do lado de menor pressão p1):
d=3Lp1+p2p1+2p2⟺y′=6sinθ(h1+h2)(h2−h1)2abaixo de G
Parede vertical: y′=6(h1+h2)(h2−h1)2. Diagrama triangular (começa na superfície livre): CI a 2L/3 do topo.
Passos para o método do diagrama
Desenhar o diagrama de pressões ao longo da placa, com os valores nos bordos e nas mudanças de fluido.
Partir o diagrama em retângulos e triângulos.
Força de cada parte = área da parte × largura b.
Ponto de aplicação de cada parte: retângulo a Li/2, triângulo a Li/3 do lado maior.
Π=∑Πi; posição do CI por momentos: Πd=∑Πidi.
Quando usar
Comportas e faces retangulares, sobretudo com gás pressurizado, dois líquidos ou uma articulação a meio (quando é preciso o momento de cada parte). Sinais: “face lateral de um recipiente”, “comporta retangular”, “camadas de líquidos”.
Exercício resolvido (Ex 2.7 do livro / Aula 03)
Um recipiente cúbico, fechado, com 1 m de aresta, contém até meia altura um óleo de densidade 0,85; na metade superior há um gás à pressão pg=7 kPa (constante). Determine: a) a impulsão total numa face lateral; b) a posição do centro de impulsão nessa face.
Resolução passo-a-passo
1. Diagrama: a pressão vale pg=7 kPa em toda a zona do gás (retângulo) e cresce a partir daí no óleo:
γo=0,85×9,8=8,33kN/m3;pfundo=7+8,33×0,5=11,165kPa2. Partes (b=1 m; z medido a partir do fundo):
Parte
Força
z
retângulo pg em toda a altura (1 m)
7×1×1=7,00 kN
0,50 m
triângulo do óleo
21×4,165×0,5×1=1,041 kN
0,5/3=0,167 m
a)Π=8,04kN(horizontal, para fora)
3. Momentos em relação ao fundo:
zCI=8,0417,00×0,5+1,041×0,167⇒b)zCI≈0,457m acima do fundo
no eixo vertical de simetria da face. (resolução do livro).
Lição
Com um gás por cima, a lei de pressões na face não é uma reta única (é constante no gás e linear no óleo), por isso Π=γh0S e y′=IG/(Sy0) não se aplicam à face inteira. O diagrama de pressões resolve sempre. A pressão do gás desloca o CI para cima (para perto do centro da face), porque é uniforme.
Exercício resolvido (Prob 2.6 do livro — comporta ABCDE; provavelmente o "Prob 2.5" que a Aula 03 manda resolver)
Uma comporta ABCDE, inclinada a 45°, roda sem atrito em torno da articulação E, no fundo, e pesa 50 kN (peso na vertical de C). A montante, por baixo da comporta, há óleo (d=0,8) sobre água. Ao longo do talude: 1,0 m da superfície do óleo até à interface (A fica acima da superfície do óleo, porque a comporta prolonga-se para lá dela, e por isso pA=0); 1,0 m da interface até B; de B a D há uma “tenda” triangular BCD (BC = CD = 1,0 m, ângulo reto em C) cuja base BD é horizontal e é a superfície da água sob ar comprimido; DE = 2,0 m. A jusante há só água, com altura hj. a) Calcule as pressões em A, B, C, D e E e trace os diagramas. b) Calcule hj para haver equilíbrio. (Figura 2.43 do livro.)
Resolução passo-a-passo
1. Pressões (cada metro de talude são 0,7071 m na vertical):
pA=0;pint=0,8×9800×0,7071=5544Pa;pB=5544+9800×0,7071=12473Pa
O ar tem pressão uniforme e BD é a sua superfície, logo pC=pD=pB=12473 Pa. E está 2sin45°=1,414 m abaixo de D: pE=12473+9800×1,414=26333Pa.
2. Diagrama: linear de A até à interface (declive 0,8γ), linear até B (declive γ), constante em BC e CD (ar), linear de D a E.
3. Momentos em E (s = distância a E ao longo do talude; o braço de cada força normal é s):
Parte
Momento (N·m)
troço AB (triângulo do óleo + trapézio da água)
−42964
troço DE, montante: −∫02p(s)sds
−34186
ar em BC + CD (equivale a pB×BD=17640 N na vertical de C, a 2,121 m de E)
−37420
peso 50000×2,121
+106066
soma sem jusante
−8504
4. Água de jusante em DE: comprimento molhado 2hj, momento +γhj3/3:
39800hj3=8504⇒hj≈1,38m
(só molha DE, porque 1,38<1,414). [resolução própria], que bate com a solução do livro (pB=12473,4, pE=26332,7 Pa, hj=1,38 m).
Lição
Uma comporta com vários troços e vários fluidos resolve-se sempre da mesma maneira: pressões nos pontos de quebra → diagrama por troços → momentos na articulação. Um gás dá diagrama retangular e a sua força total é p×(projeção), qualquer que seja a forma da “tenda”. Com a articulação no fundo, o momento de cada força normal tem braço igual à distância ao longo do talude.
3.5 Superfície livre equivalente (gás pressurizado; dois líquidos)
Ideia
As fórmulas Π=γh0S e y′=IG/(Sy0) pedem um único líquido com pressão nula na superfície livre. Quando por cima do líquido que molha a placa há um gás com pressão pg ou outro líquido, troca-se essa “sobrecarga” por uma coluna equivalente do próprio líquido que molha a placa. Obtém-se uma superfície livre fictícia (equivalente), o plano onde a pressão relativa seria nula, e mede-se h0 e y0 a partir dela. O livro chama a isto homogeneizar o líquido (Ex 2.8).
Armadilha
A altura equivalente usa o γ do líquido que está em contacto com a placa: heq=ptopo/γplaca.
Só vale para a parte da placa molhada por esse líquido. Se a placa atravessa dois fluidos (Ex 2.7, Ex 2.8), divide-se em partes, uma por fluido, cada uma com a sua superfície livre equivalente.
Com pg<0 (depressão), a superfície equivalente fica abaixo da real.
Superfície livre equivalente (Cardoso et al., §2.8, Ex 2.8)
heq=γplacaptopo,⎩⎨⎧gaˊs:lıˊquido 1 (espessura e1) sobre o lıˊquido 2:ptopo=pgptopo=γ1e1⇒heq=γ2γ1e1
A superfície fictícia fica a heqacima do topo do líquido 2; depois aplica-se Π=γ2h0S e y′=IG/(Sy0) com h0, y0 medidos a partir dela.
Passos com uma superfície livre equivalente
Calcular a pressão no topo do líquido que molha a placa (pg, ou ∑γiei das camadas de cima).
Converter em altura desse líquido: heq=ptopo/γ.
Medir h0 (vertical) e y0=h0/sinθ a partir da superfície fictícia.
Aplicar Π=γh0S e y′=IG/(Sy0).
Se a placa atravessa a interface, repetir para cada parte e somar momentos.
Quando usar
“Reservatório fechado com ar/gás à pressão…”, “manómetro marca … no topo”, “camada de óleo sobre água”, sobretudo com placas não retangulares (círculos, triângulos), onde o diagrama de pressões é incómodo. Ver também a tampa circular com óleo sobre água do Prob 2.12 do livro, resolvido no §4.5.
Exercício resolvido (Ex 2.8 do livro / Aula 03)
Uma tampa quadrada com 1,00 m de lado e dois lados horizontais obtura um orifício na parede vertical de um reservatório com água (1,20 m, da superfície livre até à interface) sobre um líquido de densidade 1,2. A interface passa pelo centro da tampa, onde está o eixo horizontal AB em torno do qual a tampa pode rodar. Calcule o módulo da força horizontal F a aplicar no bordo inferior D (0,50 m abaixo de AB) para manter a tampa fechada.
Resolução passo-a-passo
1. Metade de cima (água),S=0,5 m², h01=1,20−0,25=0,95 m:
Π1=9800×0,5×0,95=4655N;y1′=0,5×0,951×0,53/12=0,022m
CI de cima a 0,25−0,022=0,228 m acima de AB.
2. Metade de baixo — superfície livre equivalente:γ2=11760 N/m³; heq=117609800×1,20=1,00 m acima da interface. h02=1,00+0,25=1,25 m:
Π2=11760×0,5×1,25=7350N;y2′=0,5×1,251×0,53/12=0,017m
CI de baixo a 0,25+0,017=0,267 m abaixo de AB.
3. Momentos em AB: as duas impulsões empurram para fora, mas rodam a tampa em sentidos opostos. Π2 vence (tende a abrir a metade de baixo); F em D fecha:
0,50F=7350×0,267−4655×0,228⇒F≈1,80kN(resolução do livro: 1802 N. Com y′ sem arredondar dá 1797 N; a diferença é só de arredondamento).
Lição
Com a articulação no centro, a força total (12,0 kN) quase não interessa: o que conta é a diferença de momentos das duas metades, que é pequena. Por isso os y′ têm de ser calculados com cuidado (e com 3 casas). A camada de cima entra no líquido de baixo como 1,00 m equivalente, e não como 1,20 m.
Exercício resolvido (Prob 2.10 do livro — comporta com sedimentos; muito provavelmente o "Prob 2.8" das Aulas 03–04)
Uma comporta plana AB retém água (10 m) sobre uma camada de mistura de água e sedimentos (d=1,1, 1 m). Sobre a superfície da água atua uma pressão de 0,5×105 Pa. AB está a 45°: B no topo da camada de mistura, A no fundo (1 m abaixo e 1 m à direita de B); a mistura está por baixo da comporta. A comporta pesa G=20 kN/m, aplicado na vertical do ponto médio de AB, e está ligada por braços rígidos à articulação O, ao nível de B e na vertical de A (OA=OB=1 m). Não há líquido a jusante. a) Calcule Πh, Πv e Π por metro. b) Calcule a força vertical F, aplicada em B, para iniciar a abertura. (Figura 2.47 do livro.)
Resolução passo-a-passo
1. Pressões:pB=0,5×105+9800×10=148000 Pa; pA=148000+1,1×9800×1=158780 Pa.
2. a)L=AB=2=1,414 m; pressão no centroide p0=153390 Pa:
Π=p0L×1=216,9kN/m;Πh=Πv=Π/2=153,4kN/m3. Superfície livre equivalente (na mistura): heq=pB/γm=148000/10780=13,73 m acima de B. Então h0=13,73+0,5=14,23 m, y0=h0/sin45°=20,12 m e
y′=12y0L2=12×20,122=8,28×10−3m4. b) Momentos em O: como OA=OB, a normal a AB pelo seu ponto médio passa por O, logo só a excentricidade y′ dá momento: Πy′=216,9×0,00828=1,80 kN·m. O peso dá 20×0,5=10 kN·m no mesmo sentido. Com F em B (braço 1 m):
F×1=10+1,80⇒F≈11,8kN/m[resolução própria], que bate com a solução do livro.
Lição
Com uma sobrepressão enorme (≈14 m de coluna equivalente), a impulsão é grande (217 kN/m), mas o CI fica quase no centroide (y′<1 cm). Se a articulação estiver na normal que passa pelo centroide, a manobra só tem de vencer o peso e o pequeno momento Πy′. É assim que se projetam comportas fáceis de abrir (a mesma ideia aparece na comporta de segmento, §4.5).
🚢 4. Arquimedes e superfícies curvas (Aulas 04–05 · §2.9–2.10)
4.1 Teorema de Arquimedes: equilíbrio e flutuação
Ideia
Um corpo mergulhado num fluido em repouso sofre uma impulsão vertical, de baixo para cima, igual ao peso do volume de fluido deslocado. Explicação: as forças horizontais das faces opostas anulam-se (as projeções verticais são iguais e estão à mesma profundidade). Na vertical, a face de baixo tem mais pressão do que a de cima, e a diferença é exatamente γ∀. A impulsão aplica-se no centro de impulsão, o centroide do volume deslocado, que não coincide em geral com o centro de gravidade do corpo.
Armadilha
O γ é o do fluido, não o do corpo: Π=γfluido∀.
O ∀ é o volume imerso (deslocado). Num corpo que flutua é só a parte abaixo da superfície livre.
Corpo suspenso por um cabo e totalmente submerso: T=G−Π=(γc−γ)∀. Esquecer a impulsão sobrestima T (é o erro do livro no Prob 2.12, §4.5).
Um corpo assente no fundo sem fluido por baixo (vedado) não tem impulsão de Arquimedes: a face de baixo não está molhada e o fluido empurra-o para baixo. Aí calcula-se a força na superfície molhada (§4.3).
Teorema de Arquimedes (Cardoso et al., §2.10, eqs. 2.55–2.61)
impulsa˜oΠ=peso voluˊmico do fluidoγvolume deslocado∀,Πh=0,aplicada no centroide de ∀
O ponto de aplicação ser o centroide de ∀ demonstra-se por momentos (eqs. 2.58–2.59). Vale para qualquer forma; um corpo não convexo trata-se por partes convexas.
Comparação
O que acontece
Π=G
equilíbrio indiferente: o corpo fica a meia água
Π<G
o corpo afunda até ao fundo, que reage com N=G−Π
Π>G
o corpo sobe e flutua, emergindo até que o volume imerso ∀′ dê Π′=γ∀′=G
Num corpo homogéneo que flutua: ∀∀′=γγc (fração imersa = densidade relativa ao fluido).
Passos para um problema de Arquimedes
Isolar o corpo e desenhar todas as forças: peso G=γc∀, impulsão Π=γ∀imerso, cabos, reações.
Verificar se o corpo está todo molhado (incluindo por baixo). Se não estiver, Arquimedes não se aplica e passa-se ao §4.3.
Decidir o caso (Π≷G) e escrever o equilíbrio vertical (e de momentos, se houver articulações).
Se flutua, a incógnita costuma ser a profundidade imersa: resolver γ∀′(h)=G.
Quando usar
“Corpo mergulhado / submerso / a flutuar”, “bloco suspenso por um cabo dentro de água”, “boia”, “peso aparente”, “densidade mínima/máxima para afundar ou flutuar”.
4.2 Corpo na interface de dois líquidos
Ideia
Quando o corpo atravessa a interface entre dois líquidos (ou entre um líquido e o ar), cada parte desloca o seu próprio fluido. A impulsão é a soma dos pesos dos fluidos deslocados. Aplica-se no centro de gravidade de um corpo fictício não homogéneo: o volume do corpo preenchido com o fluido A na parte que está em A e com o fluido B na parte que está em B. Na interface ar–água o ar é desprezável e o CI é simplesmente o centroide do volume submerso.
Armadilha
Não se usa um γ médio aplicado ao volume todo: cada volume leva o γ do fluido onde está.
O CI não é o centroide do corpo, porque a parte mais “pesada” do corpo fictício (a que está no líquido mais denso) puxa-o para baixo.
Impulsão com dois fluidos (Cardoso et al., §2.10, eq. 2.62)
Πv=parte no fluido AγA∀A+parte no fluido BγB∀B,Πh=0
A impulsão horizontal é nula também na interface de dois líquidos (fim do §2.10; slide 9 da Aula 04).
Passos para um corpo na interface
Dividir o volume do corpo pela interface: ∀A (no fluido de cima) e ∀B (no fluido de baixo), com ∀A+∀B=∀.
Escrever a impulsão Πv=γA∀A+γB∀B, cada volume com o γdo seu fluido.
Equilíbrio vertical: Πv=G=γc∀ (mais forças exteriores, se as houver: cabos, pesos).
Resolver para a incógnita (fração imersa, γc ou um dos γ). Para o ponto de aplicação, usar o c.g. do corpo fictício não homogéneo.
Quando usar
“Corpo a flutuar entre óleo e água”, “bloco na interface”, “que fração do volume fica em cada líquido”.
Exercício resolvido (Ex 2.12 do livro / Aula 04)
Uma esfera homogénea, de peso volúmico γs e volume ∀, está em equilíbrio na interface de dois líquidos imiscíveis (γ1 em cima, γ2>γ1 em baixo). O plano de separação passa pelo centro da esfera e está à profundidade h. Determine a relação entre os três pesos volúmicos. (Na resolução, S é a área do círculo que o plano de separação define na esfera.)
Resolução passo-a-passo
1. Superfície superior (molhada só pelo líquido 1): o volume real acima dela, até à superfície livre, é a coluna hS menos a semiesfera superior. A força é para baixo:
Πv1=γ1(hS−2∀)↓2. Superfície inferior: o volume (fictício) acima dela é a coluna hS no líquido 1 mais a semiesfera inferior, preenchida com o líquido 2. A força é para cima:
Πv2=γ1hS+γ22∀↑3. Equilíbrio:Πv2−Πv1=G=γs∀:
γ12∀+γ22∀=γs∀⇒γs=2γ1+γ2(resolução do livro)
Lição
O termo γ1hScancela-se: a profundidade a que está o corpo não interessa, como Arquimedes prevê. O resultado é exatamente a eq. 2.62 com ∀A=∀B=∀/2. Fazer o problema “pelas superfícies” é a demonstração de Arquimedes num caso concreto.
4.3 Superfícies curvas: componentes Πh e Πv
Ideia
Numa superfície curva as pressões elementares mudam de direção, e somá-las diretamente é difícil. Por isso calculam-se as componentes separadamente:
Horizontal: é igual à impulsão sobre a projeção da superfície num plano vertical (normal à direção considerada). Volta-se assim ao caso das superfícies planas (§3).
Vertical: é igual ao peso do volume de líquido entre a superfície e a superfície livre (ou o plano de carga). Se esse volume está mesmo cheio de líquido (volume real), a força é para baixo. Se o líquido está do outro lado da superfície (volume fictício, imaginado acima dela até ao plano de carga), a força é para cima.
Armadilha
O h0 de Πh é a profundidade do centroide da projeção vertical, e não o da superfície curva.
Com gás pressurizado ou dois líquidos, o volume de Πv mede-se até à superfície livre equivalente (§3.5), e não até à real.
As fórmulas exigem bijeção: cada vertical (para Πv) e cada horizontal (para Πh) só pode cortar a superfície uma vez. Se cortar duas vezes, divide-se a superfície em trechos (§4.4).
Num semicilindro ou arco simétrico, as projeções verticais das duas metades anulam-se e Πh total pode ser zero.
Impulsão sobre superfícies curvas (Cardoso et al., §2.9, eqs. 2.47–2.54)
Πh=p0 no centroide da projec¸a˜oγh0projec¸a˜o verticalSv,y′=Svh0IG(projec¸a˜o vertical: y0=h0)Πv=γvolume entre a superfıˊciee o plano de carga∀{↓↑volume realvolume fictıˊcio,aplicada no centroide de ∀Π=Πh2+Πv2,tgθ=ΠhΠv(θ com a horizontal)
Em 3D há duas componentes horizontais (Πx, Πy), cada uma pela sua projeção, e Πh=Πx2+Πy2.
Origem (slides 10–12 da Aula 04; eqs. 2.47–2.53): num elemento dS cuja normal faz o ângulo θ com a vertical,
dFh=γhdSsinθ=γhdSv,dFv=γhdScosθ=γhdSh=γd∀
onde dSh é a secção do prisma de líquido acima do elemento.
Vários líquidos sobrepostos: em alternativa à superfície livre equivalente, Πv=∑γi∀i (cada camada com o seu γ). Nesse caso a linha de ação passa pelo centro de gravidade do volume não homogéneo, e não pelo seu centroide (slide 12).
Passos para a impulsão numa superfície curva
Identificar a superfície molhada e o plano de carga (superfície livre real ou equivalente).
Πh: projetar a superfície num plano vertical → Sv, h0 → Πh=γh0Sv, linha de ação a y′ abaixo do centroide da projeção.
Πv: desenhar o volume entre a superfície e o plano de carga, decidir se é real (↓) ou fictício (↑) e calcular γ∀, aplicada no centroide desse volume.
Compor: Π, θ. Se a superfície é circular, a resultante passa pelo centro (§4.4).
Equilíbrio da comporta: momentos na articulação com Πh e Πv nas suas linhas de ação (ou com Π pelo centro).
Quando usar
“Comporta de segmento / setor / cilíndrica”, “visor semiesférico”, “barragem com paramento inclinado ou curvo”, “calcule as componentes horizontal e vertical”. Uma face plana inclinada também se pode tratar assim (é o Ex 2.9), o que muitas vezes é mais rápido do que y′.
Exercício resolvido (Prob 2.8 do livro — visor; é o "Prob 2.6" da Aula 04)
Um reservatório com água tem na parede vertical um visor semiesférico de raio R=0,5 m, que sai da parede para o exterior e está cheio de água. O topo do visor está 1,0 m abaixo da superfície livre, logo o centro está a h0=1,5 m. Calcule as componentes da impulsão no visor. (As linhas de ação e a resultante são extra, não pedidas no livro.)
Resolução passo-a-passo
1. Πh: a projeção vertical é o círculo de raio R, com o centro a h0=1,5 m:
Πh=9800×1,5×π×0,52=11,5kNy′=πR2h0πR4/4=4h0R2=0,042m
(4,2 cm abaixo do centro).
2. Πv: as verticais cortam a semiesfera duas vezes, por isso divide-se no equador horizontal e combinam-se as duas metades. O volume que fica é o próprio visor, cheio de água (real), logo a força é para baixo:
Πv=9800×32π×0,53=2,57kN↓
aplicada no centroide da semiesfera, a 3R/8=0,19 m da parede.
3. Resultante:Π=11,552+2,572≈11,8kN, a θ=arctg(2,57/11,55)≈12,5° abaixo da horizontal, a passar pelo centro da semiesfera.
[resolução própria], que bate com a solução do livro (11 545,4 N e 2565,6 N).
Lição
Em Πv, a metade de cima da casca tem a água por baixo: o volume até à superfície livre é fictício e a força é ↑. A metade de baixo tem a água por cima: o volume é real e a força é ↓. A ↓ é maior, e a diferença é o volume do visor. Isto é Arquimedes “por metade”: a força vertical num invólucro cheio é o peso do líquido lá dentro.
Exercício resolvido (Ex 2.9 do livro / Aula 04 — barragem triangular)
Calcule o peso volúmico mínimo de um corpo sólido homogéneo (barragem de secção triangular, altura h, paramentos a 60° com a horizontal, água até ao coroamento) sobre o qual assenta uma membrana de impermeabilização, para resistir sem escorregamento à impulsão da água. O coeficiente de atrito estático é 0,7. (A membrana no paramento de montante permite não considerar subpressões.)
Resolução passo-a-passo
1. Πh (projeção vertical do paramento: retângulo de altura h, por metro):
Πh=γ2h22. Πv: o volume real acima do paramento de montante é o triângulo de altura h e base htg30°:
Πv=γ2h2tg30°↓3. Peso: secção de base 2htg30° e altura h, logo G=γsh2tg30°=dγh2tg30°.
4. Não deslizamento: o atrito, φ×(forc¸a normal), tem de equilibrar Πh:
0,7(dtg30°+2tg30°)=21⇒d=0,737(γs≈7224N/m3)(resolução do livro)
Lição
Num paramento inclinado para montante, a água ajuda a estabilizar: o seu peso (Πv↓) aumenta a força normal e o atrito. Por isso basta d<1. A altura h cancela-se. Decompor em Πh/Πv é mais rápido do que calcular Π e y′ na face inclinada.
Exercício resolvido (Ex 2.10 do livro / Aula 04 — oitavo de esfera)
No canto do fundo de um reservatório (encontro do fundo com duas paredes verticais perpendiculares) há uma peça em forma de oitavo de esfera de raio r, com o centro no canto. A água tem altura h. Calcule a impulsão total sobre a superfície esférica e a sua inclinação.
Resolução passo-a-passo
1. Πz: o volume real acima da superfície é o quarto de cilindro 4πr2h menos o oitavo de esfera 6πr3:
Πz=γ4πr2(h−32r)↓2. Πx e Πy: a projeção em cada parede é um quarto de círculo (S=πr2/4), com o centroide a 4r/(3π) acima do fundo:
Πx=Πy=γ4πr2(h−3π4r),Πh=2Πx3. Módulo e inclinação (θ medido em relação à reta horizontal OA, a diagonal do canto):
Π=Πz2+2Πx2,θ=arctg2(h−4r/(3π))h−2r/3
e a resultante passa pelo centro da esfera (o canto).
(resolução do livro, que remete por gralha para a Fig. 2.19 em vez da Fig. 2.21)
Lição
Em 3D trata-se cada direção horizontal com a sua projeção e compõe-se depois. O centroide do quarto de círculo (4r/3π) vem da Tabela 2.1 (§3.3).
4.4 Superfícies sem bijeção; superfícies circulares
Ideia
Sem bijeção (uma vertical ou horizontal corta a superfície mais de uma vez): divide-se a superfície em trechos com bijeção, calcula-se Πh e Πv de cada um com o seu volume real ou fictício, e soma-se vetorialmente. Muitas parcelas anulam-se: as projeções verticais de trechos opostos cancelam-se em Πh; em Πv, o volume real de cima e o fictício de baixo deixam só o volume entre eles.
Superfície circular (cilíndrica ou esférica): cada pressão elementar é normal à superfície, logo passa pelo centro. As forças são concorrentes, por isso a resultante também passa pelo centro e o seu momento em relação ao centro é nulo. Não é preciso calcular as linhas de ação de Πh e Πv: basta pô-las no centro.
Armadilha
Isto não vale para o peso nem para outras forças: só a impulsão sobre a superfície circular passa pelo centro.
Se a articulação estiver no centro do arco, a impulsão não dá momento nenhum. Se estiver noutro ponto, o braço mede-se do ponto ao centro (e não ao centroide da projeção).
Cuidado com os trechos de plano de carga diferente (fluidos diferentes de cada lado): cada trecho mede o seu volume até ao seu próprio plano de carga.
Superfícies circulares (Cardoso et al., §2.9)
Π=Πh2+Πv2com linha de ac¸a˜o pelo centro O⇒MO(Π)=0,MA(Π)=ΠhΔzAO+ΠvΔxAO
(com os sinais de cada braço consoante o sentido de rotação).
Passos para superfícies sem bijeção / circulares
Marcar os pontos onde a superfície deixa de ter bijeção (topo, fundo, extremos laterais) e dividi-la em trechos.
Para cada trecho: projeção vertical → Πh; volume até ao plano de carga (real ↓ / fictício ↑) → Πv.
Somar com sinais. Se a superfície é circular, pôr a resultante no centro.
Momentos na articulação: a impulsão com braços medidos até ao centro, mais o peso, as forças aplicadas e as reações.
Quando usar
“Cilindro encostado a uma parede / a fazer de comporta”, “semicilindro”, “cilindro com líquidos diferentes de cada lado”, “comporta de setor articulada no centro”.
Exercício resolvido (Ex 2.11 do livro / Aula 04 — cilindro entre dois líquidos)
Um cilindro com D=1 m e comprimento L=2,5 m obtura um orifício retangular numa parede inclinada a 45°. O único movimento possível é rodar em torno da aresta A, o ponto de contacto no arco inferior esquerdo (a 225°). Do lado esquerdo há um líquido A (d=0,8) com 1,00 m de altura sobre um líquido B (d=1,0); a interface está 2,00 m acima do eixo. A superfície molhada pelo líquido B é o arco AB (B é o ponto mais à esquerda, à cota do eixo) mais o semicilindro superior BC. a) Calcule as componentes e a direção da impulsão. b) Calcule a densidade do cilindro se a força horizontal F, aplicada em B (para a esquerda), necessária para iniciar o movimento de abertura do orifício, for F=123,5 kN.
Resolução passo-a-passo
1. Plano de carga (superfície livre equivalente no líquido B): 2,00+0,8×1,00=2,80 m acima do eixo. Com a=b=0,5sin45°=0,3536 m (A está a à direita de B e b abaixo do eixo) e ∀c=π0,52×2,5=1,9635 m³.
2. Πh: no semicilindro BC, as projeções verticais das duas metades anulam-se. Só conta AB, cuja projeção tem altura b:
Πh=9800×2,5×b(2,8+2b)=25785N(→)3. Πv (dois trechos com bijeção):
BC: volume real entre o semicilindro e o plano de carga, Πv1=9800(2,8×1×2,5−∀c/2)=58979 N ↓
AB: volume fictício, Πv2=9800[(0,5−a)×2,8+π0,2536045−2ab]×2,5=10920 N ↑
Πv=58979−10920=48059N↓,θ=arctg2578548059=61,8°
com a resultante a passar pelo eixo do cilindro.
4. b) Momentos em A. O eixo O está a a na horizontal e a b na vertical de A, e a=b. Assim, F (horizontal, à cota do eixo) tem braço b, Πh e Πv (ambas pelo eixo) têm braços b e a, e o peso G (no eixo) tem braço a. Como os braços são todos iguais:
G=F−Πh−Πv=123500−25785−48059=49656N⇒d=9800×1,963549656=2,58(resolução do livro, que tem uma gralha: escreve Πh=25875 em vez de 25 785; o resultado final não muda)
Lição
Um cilindro é o caso clássico sem bijeção: parte-se nos pontos de topo e de extremo lateral. A homogeneização (2,8 m) entra nas duas componentes. No fim, como a impulsão passa pelo eixo, os momentos ficam simples: aqui todos os braços valem 0,3536 m e cancelam-se.
Exercício resolvido (Prob 2.11 do livro — cilindro a reter água; é o "Prob 2.9" das Aulas 04–05)
Um cilindro de raio r=2 m, assente no fundo, retém água de um dos lados até à cota do eixo (h=r). a) Calcule a força horizontal F, aplicada no eixo, necessária para o equilíbrio (por metro). b) Calcule a densidade mínima do cilindro para que não se levante.
Resolução passo-a-passo
1. Superfície molhada: o quarto de cilindro entre a cota do eixo e o fundo, do lado da água.
2. Πh (projeção: retângulo de altura r):
Πh=γ2r2=9800×2=19,6kN/m3. Πv: o quarto de círculo fica entre a superfície e o plano de carga (a cota do eixo), e não tem água lá dentro. É um volume fictício, logo a força é para cima:
Πv=γ4πr2=30,8kN/m↑4. a) Momentos no ponto de contacto com o fundo: a impulsão passa pelo eixo. Πv é vertical e passa pelo contacto, por isso não dá momento; Πh e F estão ambas à cota do eixo (braço r):
Fr=Πhr⇒F=19,6kN/m5. b) Não se levantar:G≥Πv, ou seja, dγπr2≥γπr2/4, logo dmin=0,25.
[resolução própria], que bate com a solução do livro.
Lição
A água por baixo de um cilindro empurra-o para cima (volume fictício), apesar de estar “ao lado”. Escolher para momentos um ponto pelo qual passa uma das componentes elimina essa componente.
4.5 Comportas curvas: equilíbrio, reações e abertura
Ideia
Os problemas de comportas das Aulas 04–05 seguem sempre o mesmo guião: (1) impulsão (Πh, Πv, linha de ação); (2) comporta fechada: equilíbrio com as reações nos apoios; (3) início da abertura: a reação no apoio que se vai descolar passa a zero e escreve-se o equilíbrio de momentos na articulação para obter a força de manobra. Numa comporta de segmento (arco com centro na articulação), a impulsão passa pela articulação e não dá momento: a manobra só tem de vencer o peso. É por isso que estas comportas se usam.
Armadilha
“Força em cada cabo/pilar” ≠ força total. Com dois cabos ou pilares simétricos, divide-se por 2.
No início da abertura, quem se anula é a reação do apoio que a comporta deixa, e não a da articulação.
Braços medidos perpendicularmente à linha de ação de cada força.
Cubo ou contrapeso submerso: entra com o peso aparente(γc−γ)∀, não com o peso.
Condições de equilíbrio de uma comporta (Cardoso et al., §2.8–2.9)
∑Marticulac¸a˜o=0:impulsa˜o(e=0 se circular centrada)Πe+GxG+∑Fibi+=0 na aberturaRapoiobR=0∑Fx=0,∑Fz=0(da˜o as reac¸o˜es na articulac¸a˜o)
Passos para uma comporta curva
Calcular Πh, Πv e o ponto por onde passa a resultante (o centro, se a comporta é circular).
Fechada: momentos na articulação → reação no apoio; ∑Fx, ∑Fz → reações na articulação.
A abrir: reação no apoio =0; momentos na articulação → força de manobra (por cabo, se houver vários).
Verificar sentidos (reação para baixo = negativa) e a força por cabo vs total.
Quando usar
“Comporta de segmento / de setor / tainter”, “reações na articulação e no apoio”, “força nos cabos para iniciar a abertura”, “comparar com uma comporta plana”.
Exercício resolvido (Prob 2.9 do livro — comporta de segmento; é o "Prob 2.7" da Aula 05)
Uma comporta de segmento com 5 m de largura fecha uma conduta com 2 m de altura. O arco tem raio r=4 m e centro na articulação A, à cota do teto da conduta. O topo do arco está à cota do teto, 4 m na horizontal de A; o raio AB faz 30° com a horizontal, e B (na soleira) está 2 m abaixo e 3,464 m na horizontal de A. A superfície livre a montante está 10 m acima do teto; não há água a jusante. A comporta pesa G=50 kN, aplicado a 3 m de A (na horizontal), e é manobrada por dois cabos verticais fixados às suas extremidades laterais (na figura e na solução, na vertical do topo do arco, a 4 m de A). a) Com a comporta fechada, calcule (a.1) as reações de apoio em A e B, supondo esta última vertical, e (a.2) a força em cada cabo para iniciar a abertura. b) Se a comporta fosse plana (do topo do arco a B): (b.1) indique se a força nos cabos aumenta ou diminui; (b.2) calcule a força em cada cabo.
Resolução passo-a-passo
1. Πh (projeção: retângulo 2×5 m², com o centroide 11 m abaixo da superfície livre):
Πh=9800×11×(2×5)=1078kN2. Πv: o volume entre o arco e a superfície livre não tem água (está do outro lado do arco), por isso é fictício e a força é para cima. A sua secção é o retângulo 10×(4−3,464) mais o segmento entre o arco e o teto (setor de 30° menos o triângulo A–B–pé):
Πv=9800×5×[10×0,536+(12π42−23,464×2)]=9800×30,42≈298kN↑Π=10782+2982≈1119 kN, que passa por A, logo MA(Π)=0.
3. a.1) Fechada. Momentos em A, só com o peso e a reação vertical em B:
RvB×3,464=50×3⇒RvB=43,3kN↑∑Fz: RvA=50−43,3−298=−291,4, ou seja, RvA=291,4kN↓. ∑Fx: RhA=1078kN (oposta a Πh).
4. a.2) A abrir (RvB=0), com os dois cabos a 4 m de A:
2F×4=50×3⇒F=18,75kN por cabo(37,5kN no total)5. b) Comporta plana do topo do arco a B: L=0,5362+22=2,0706 m, inclinada a 75°.
Π=9800×11×(2,0706×5)=1116,1kN;y0=sin75°11=11,388m;y′=12y0L2=0,0314m
A normal à corda pelo seu ponto médio passa pelo centro do arco, A. Por isso só a excentricidade y′ dá momento: Πy′=35,0 kN·m, no mesmo sentido do peso.
2F×4=150+35,0⇒F=23,13kN por cabo
b.1) A força aumenta (de 18,75 para 23,13 kN por cabo).
[resolução própria], que bate com a solução do livro.
Lição
Com o arco centrado na articulação, a impulsão (1119 kN!) não pesa na manobra: os cabos só levantam o peso. Uma comporta plana equivalente já obriga a vencer Πy′, e a força sobe 23 %. A água empurra a comporta para cima (298 kN), por isso a articulação tem de a segurar para baixo. Atenção à pergunta: a força em cada cabo é 18,75 kN; no total são 37,5 kN.
Exercício resolvido (Prob 2.12 do livro — tampa circular com cubo suspenso; é o "Prob 2.10" da Aula 05)
Uma tampa circular com D=2 m, articulada no bordo inferior A e inclinada a 30° com a horizontal, fecha uma abertura num reservatório aberto com 2,5 m de óleo (d=0,8) sobre água. O bordo superior da tampa está à cota da interface e a tampa é molhada pela água, por baixo. Do centro da tampa pende, por um cabo vertical, um cubo de 1 m de aresta, totalmente submerso em água. a) Calcule a impulsão sobre a tampa e o seu ponto de aplicação. b) Calcule a densidade do cubo para a tampa estar em equilíbrio. Despreze os pesos da tampa e do cabo. (O professor riscou “mínima” no enunciado.)
Resolução passo-a-passo
1. Superfície livre equivalente:pint=0,8×9800×2,5=19600 Pa, que equivalem a 2,0 m de água. O centroide está 1 m ao longo da tampa a partir do bordo superior, ou seja, 1×sin30°=0,5 m abaixo da interface: h0=2,5 m e p0=24500 Pa.
2. a)Π=24500×π×12=77,0kNy0=sin30°h0=5m;y′=4y0R2=0,05m
O CI está 0,05 m abaixo do centro, ao longo do plano, ou seja, a 1−0,05=0,95m de A.
3. b) Momentos em A: o cabo está no centro, a 1×cos30°=0,866 m de A na horizontal:
T×0,866=77,0×0,95⇒T=84,4kN
O cubo está submerso, logo T=(γc−γ)∀:
γc=184,4+9,8kN/m3⇒d≈9,6[resolução própria]. O livro dá d=8,62, que é d−1: ignora a impulsão sobre o cubo submerso. O valor certo é ≈9,6.
Lição
Duas armadilhas num só problema: (1) o óleo entra como 2,0 m de água e não como 2,5 m; (2) um contrapeso submerso pesa menos γ∀. Até as soluções do livro se enganam nisto, por isso confirma sempre se o corpo está dentro de água.
Exercício resolvido (Ex 2.13 do livro / Aula 05 — cilindro com placa)
Uma comporta cilíndrica num canal (r=2 m, L=10 m) está fixada pelas extremidades do eixo a dois pilares inseridos nas paredes. Por baixo dele, uma placa vertical AB vai do ponto A do cilindro (a 240°, 1 m à esquerda do eixo) até ao fundo, em B. A jusante (à direita) a água tem 3 m de altura, até à cota do eixo. A montante a superfície livre toca o cilindro no ponto a 120°, 1 m à esquerda e 1,732 m acima do eixo. a) Calcule a força horizontal em cada pilar, admitindo que a reação em B é nula. b) Calcule o peso mínimo do cilindro para que não se levante, supondo que esse deslocamento é possível e desprezando o atrito nos apoios.
Resolução passo-a-passo
1. a) Πh (cilindro e placa juntos; projeções desde a superfície até ao fundo):
montante: h=3+1,732=4,732 m, Πhe=9800×24,7322×10=1097,2 kN →
jusante: h=3 m, Πhd=9800×29×10=441,0 kN ←
Fpilar=21097,2−441,0=328,1kN2. b) Πv: somando os trechos de montante (plano de carga a +1,732 m) e de jusante (plano de carga no eixo), o que fica é uma secção “imersa” igual ao setor de 240° menos o triângulo de lados 1 e 1,732:
S=32π22−21×1×1,732=7,512m2;∀=75,12m3;Πv=9800×75,12=736,1kN↑
Para não se levantar, G≥Πv, logo Gmin=736,1kN.
(resolução do livro, que escreve por gralha “Π” em vez de π no cálculo de S)
Lição
Com planos de carga diferentes de cada lado, Πh calcula-se como duas paredes verticais, uma de cada lado, e subtrai-se. Πv é “Arquimedes generalizado”: a secção que conta é a parte do cilindro abaixo do plano de carga de cada lado.
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