O que cobre: a Aula 01B e o Cap. 1 do livro (Cardoso et al.), isto é, as secções §1 (1.1–1.9) do Resumo MAP1: definição de fluido, massa volúmica, compressibilidade, tensão superficial, viscosidade, tensão de vapor e efeito da temperatura.
1.1 Sólidos, líquidos, gases e definição de fluido
Ideia
O que separa os três estados é a distância média entre moléculas, ℓ, comparada com o tamanho da molécula, ℓ0 (para a água, ℓ0≈10−10 m). Quanto maior ℓ/ℓ0, mais fracas são as forças de coesão e mais compressível é a matéria.
Um sólido resiste a uma força tangencial: deforma-se um pouco e para, num novo equilíbrio.
Um fluido não resiste: enquanto houver tensão tangencial, continua a deformar-se. É isto que define um fluido. Daí a consequência central da Hidrostática: em repouso, um fluido só pode ter pressão, porque qualquer τ=0 o poria em movimento.
Armadilha
Errata do slide 6: a lei de Hooke aparece como "ε=Eσ". O correto é σ=Eε (ou ε=σ/E).
O símbolo ε tem dois significados nesta aula: extensão (slide 6, Hooke) e módulo de elasticidade volumétrica (slide 11, ver 1.5). Em Hidráulica, ε é quase sempre o segundo.
“Líquido = incompressível” é uma aproximação, não uma propriedade: falha no golpe de aríete e a grandes profundidades oceânicas. E os gases podem comportar-se como compressíveis ou como incompressíveis.
Estados da matéria e definição de fluido (Cardoso et al., §1.1 e §1.3)
Estado
ℓ vs ℓ0
Comportamento
Sólido
ℓ<ℓ0 ou ℓ≈ℓ0
Forças de atração muito fortes; moléculas em posições fixas; forma própria
Líquido
ℓ=O(ℓ0)
As moléculas não escapam do conjunto: volume bem definido, mas compressível; toma a forma do recipiente; comporta-se, geralmente, como incompressível
Gás
ℓ≫ℓ0
Forças intermoleculares desprezáveis; muito compressível (mas pode comportar-se como incompressível)
Fluido: substância que se deforma continuamente quando sujeita a uma tensão tangencial τ, por mais pequena que esta seja. Não oferece resistência estática ao corte.
Sólido (elástico): deforma-se até atingir um novo equilíbrio. Abaixo do regime plástico, a deformação é proporcional à tensão (Hooke, σ=Eε) e o sólido recupera a forma quando a força é retirada.
Fluido: deforma-se continuamente enquanto a força atuar (figura das placas: as linhas inclinam-se cada vez mais em t0<t1<t2). Para cada fluido há uma relação bem definida entre τ e a velocidade de deformaçãodθ/dt; essa relação é a viscosidade (1.7).
Consequências (livro): um fluido não tem forma própria, e um fluido em repouso não consegue manter descontinuidades nem “buracos” na superfície.
Quando usar
Em perguntas conceptuais como “porque é que um fluido em repouso não tem tensões tangenciais?” ou “pode tratar-se este líquido/gás como incompressível?”. A resposta parte sempre da definição de fluido: deformação contínua sob qualquer τ.
1.2 Fluido como meio contínuo; tensões e pressão
Ideia
Ao engenheiro interessa o comportamento médio (macroscópico) de enormes quantidades de moléculas, não o de cada uma. Por isso trata-se o fluido como um meio contínuo: cada ponto tem um valor de ρ, p, u, … Para isso, o “volume-ponto” tem de ter moléculas suficientes para a média estabilizar, mas tem de ser minúsculo face ao escoamento:
volume demasiado grande → o fluido pode ser heterogéneo (incerteza macroscópica);
entre os dois há um patamar, cujo limite inferior é δ∀∗≈10−9 mm³. O livro chama partícula de fluido a um volume desta ordem, com cerca de 1 µm de lado.
Armadilha
Pressão mecânica e pressão termodinâmica só coincidem em repouso (ou em movimento de corpo rígido), quando as três tensões normais são iguais. Em movimento podem diferir; isso é tratado no Cap. 5 do livro (fora do MAP1).
A pressão é um escalar e é puramente compressiva: não tem direção. A força de pressão é que tem direção, a da normal à superfície.
Sinal: os slides escrevem pˉ=31(σ11+σ22+σ33), tomando as tensões normais como compressões positivas. Com a convenção de Resistência de Materiais (tração positiva), escreve-se com um ”−”, como abaixo. O significado é o mesmo: a pressão é a média das tensões normais de compressão.
Hipótese do contínuo, tensões e pressão (Cardoso et al., §1.2)
Validade: a menor dimensão característica do escoamento tem de ser muito superior à trajetória média livre das moléculas (ordem de grandeza ℓ). Exemplo: no ar à pressão atmosférica há 2×108 moléculas num cubo de 2 µm de lado, e a trajetória média livre é de 0,05 µm.
ρ=limδ∀→δ∀∗δ∀δm,δ∀∗≈10−9mm3
Uma força elementar δF sobre uma superfície δS de normal n decompõe-se numa parte normal e numa tangencial:
tensa˜o normalσn=δSδFntensa˜o tangencialτ=σt=δSδFtσ=limδS→0δSδF=dSdF[Pa=N/m2]pressa˜o mecaˆnica (qualquer estado)pˉ=−31(σ11+σ22+σ33)pressa˜o termodinaˆmica (fluido em repouso)p=−σ11=−σ22=−σ33
Em repouso, a pressão é independente da direção e puramente compressiva.
Origem física (livro): a força do fluido sobre uma parede é a resultante da variação da quantidade de movimento das moléculas que nela embatem. Generaliza-se a qualquer ponto interior com uma “fronteira virtual”.
Pressão atmosférica normal = pressão do ar a 20 °C ao nível médio do mar; os slides e o livro usam patm=1,012×105 Pa.
Quando usar
Justifica que se descreva o fluido por campos contínuos (ρ(x), p(x), …), que é o que se faz em toda a matéria seguinte. Pergunta conceptual típica: “quando falha a hipótese do contínuo?” → quando a dimensão do escoamento se aproxima da trajetória média livre (gases muito rarefeitos, canais microscópicos).
1.3 Sistema material, propriedades extensivas e intensivas, unidades
Ideia
Um sistema material é uma porção de fluido “marcada com corante” (imagem do livro): pode deslocar-se, mudar de forma e de volume, mas é sempre a mesma matéria. É esta ideia que, no §7, dá o Teorema de Transporte de Reynolds. As propriedades de um sistema dividem-se num teste simples: se cortar o sistema ao meio, a propriedade passa a metade? Se sim, é extensiva; se não, é intensiva.
Armadilha
O peso é extensivo, mas o peso volúmico é intensivo. Dividir uma grandeza extensiva pela massa ou pelo volume dá uma intensiva.
Valor de g: os slides usam g=9,8 m/s² (γaˊgua=9800 N/m³); o livro usa g=9,81 (γ=9810). Usar o valor da aula (ou o do enunciado) e mantê-lo em todo o problema.
Definições e sistema MLT (Cardoso et al., §1.4 e §1.5)
Sistema material: porção de matéria fluida suficiente para representar o meio contínuo; pode deslocar-se e mudar de forma e de volume ao longo do tempo.
Propriedades extensivas: proporcionais à massa total do sistema (ex.: energia, peso).
Propriedades intensivas: independentes da quantidade de massa (ex.: massa volúmica, pressão, temperatura).
SI = sistema MLT(Θ), com as grandezas fundamentais massa M (kg), comprimento L (m), tempo T (s) e temperatura Θ (K). Dimensões das grandezas desta secção:
Grandeza
Símbolo
Dimensões
Unidade SI
Massa volúmica
ρ
ML−3
kg/m³
Peso volúmico
γ
ML−2T−2
N/m³
Pressão, tensão, ε
p,τ,ε
ML−1T−2
Pa = N/m²
Tensão superficial
σ
MT−2
N/m
Viscosidade dinâmica
μ
ML−1T−1
Pa·s = kg m⁻¹ s⁻¹
Viscosidade cinemática
ν
L2T−1
m²/s
Prefixos (livro): escolhem-se de modo que o valor numérico fique entre 0,1 e 1000 (ex.: 3×106 N = 3 MN). O número de casas decimais deve corresponder à precisão garantida pelos dados.
Quando usar
Verificação dimensional no fim de cada exercício: se o resultado de uma pressão não sair em ML−1T−2 (Pa), há um erro na fórmula. É uma verificação de 10 segundos que apanha muitos erros de unidades no teste.
1.4 Massa volúmica, peso volúmico e densidade
Ideia
Três maneiras de dizer “quão pesado é o fluido”:
ρ diz quanta massa cabe num m³;
γ=ρg diz quanto pesa um m³, e é esta a grandeza que entra na Hidrostática;
d diz quantas vezes o fluido é mais pesado do que a água a 4 °C.
Os enunciados quase sempre dão a densidade (óleo d=0,85, mercúrio d=13,6), e o primeiro passo é convertê-la em γ=dγaˊgua.
Armadilha
Densidade ≠ massa volúmica. Em inglês, density é ρ; em português, densidade é o dadimensional.
ρ, γ e dvariam muito pouco com a temperatura (água: 1000 kg/m³ a 4 °C → 958 kg/m³ a 100 °C). Na prática usa-se 1000 kg/m³ e 9800 N/m³.
∀ = volume (notação da cadeira). Se ρ variar no espaço: ρ=d∀dm e m=∫∀ρd∀; se for constante, m=ρ∀.
Fluido
ρ (kg/m³)
γ (N/m³)
d
Água (4 °C)
1000
9800 (slides) · 9810 (livro)
1
Ar (20 °C)
1,204
≈ 11,8
≈ 0,0012
Mercúrio (20 °C)
13 600
≈ 133 280
13,6
Passos para obter o peso volúmico de um fluido
Ler a densidade d do enunciado.
γ=dγaˊgua=d×9800 N/m³.
Se for pedida a massa volúmica: ρ=d×1000 kg/m³.
Quando usar
Sempre que o enunciado dá “óleo de densidade 0,9”, “mercúrio (d=13,6)”, etc. É o primeiro passo de todos os problemas de manómetros (§2).
Exercício resolvido (Cardoso et al., §1.6.1)
Quantas vezes é a água (4 °C) mais pesada do que o ar (20 °C), por unidade de volume? Use g=9,81 m/s².
Resolução passo-a-passo
1. Peso volúmico do ar:γar=ρarg=1,204×9,81=11,8 N/m³.
2. Razão:γarγaˊgua=11,89810≈830(resolução do livro)
Lição
O ar pesa cerca de 830 vezes menos do que a água. É por isso que, nos manómetros e reservatórios, se despreza o peso das colunas de gás (γgaˊsh≈0, §2).
1.5 Compressibilidade e módulo de elasticidade volumétrica
Ideia
O módulo ε é a “rigidez” do fluido à compressão, o análogo do módulo de Young E para variações de volume. Quanto maior ε, mais pressão é preciso para comprimir o fluido:
água:ε=2,2 GPa, logo para variar 1 % a sua massa volúmica são precisos 22 MPa ≈ 220 atmosferas → na prática é incompressível;
gases:ε é igual à pressão a que estão sujeitos (ar: ε≈1,01×105 Pa), cerca de 20 000 vezes menos rígidos do que a água → compressíveis.
Armadilha
O sinal ”−”: um aumento de p provoca uma diminuição de volume (d∀/dp<0). O ”−” na definição garante α>0 e ε>0. Na forma com ρ não há sinal, porque ρaumenta com p.
As definições são a temperatura constante.
ε e αvariam muito pouco com a temperatura (água: 2,04 GPa a 0 °C, 2,2 a 20 °C, máximo 2,3 a 50 °C, 2,07 a 100 °C).
Coeficiente de compressibilidade e módulo ε (Cardoso et al., §1.6.2)
coef. de compressibilidade [Pa−1]α=−∀1(dpd∀)Θmoˊdulo de elasticidade volumeˊtrica [Pa]ε=α1=−∀(d∀dp)ΘForma com ρ. A massa é constante: m=ρ∀=cte⇒ρd∀+∀dρ=0⇒∀d∀=−ρdρ. Substituindo:
ε=ρ(dρdp)Θ⟹ρΔρ≈εΔp(variac¸o˜es pequenas)
Exceções à incompressibilidade dos líquidos: golpe de aríete; aumento de ρ a grandes profundidades oceânicas.
Nota do livro: a velocidade do som num fluido é c=ε/ρ; na água a 20 °C, c≈1450 m/s.
Passos para estimar uma variação de massa volúmica
Identificar o acréscimo de pressão Δp (e a pressão inicial, se o acréscimo vier em %).
Se Δp≪ε: Δρ≈ρΔp/ε.
Forma exata, integrando dρ/ρ=dp/ε: Δρ=ρ(eΔp/ε−1).
Concluir se o fluido pode ou não ser tratado como incompressível.
Quando usar
Sinais no enunciado: “variação da massa volúmica”, “aumento de pressão de X %”, “pode a água ser considerada incompressível?”, ou a menção de ε=2,2×109 Pa.
Exercício resolvido (Ex 1.1 do livro)
Água à pressão atmosférica normal tem ρ=998 kg/m³ e ε=2,20×109 N/m². Calcule o aumento de massa volúmica correspondente a um aumento de pressão de 100 %.
Resolução passo-a-passo
1. Acréscimo de pressão: de patm=1,012×105 Pa para 2patm, logo Δp=1,012×105 Pa.
2. Integrar ε=ρdp/dρ:∫ρρ+Δρρdρ=∫p2pεdp⇒ln(1+ρΔρ)=εp=2,2×1091,012×105=4,6×10−53. Resultado:Δρ=ρ(ep/ε−1)=998×4,6×10−5⇒Δρ≈0,046kg/m3(<0,005%)(resolução do livro)
Lição
Duplicar a pressão altera a massa volúmica da água em menos de 0,005 %. É esta a justificação numérica para tratar a água como incompressível em quase toda a Hidráulica. Como Δp≪ε, a forma linearizada Δρ/ρ≈Δp/ε dá o mesmo resultado.
1.6 Tensão superficial e capilaridade
Ideia
Uma molécula no interior do líquido é puxada igualmente em todas as direções pelas vizinhas (coesão em equilíbrio). Uma molécula à superfície só tem vizinhas líquidas de um lado. O desequilíbrio entre coesão (entre moléculas iguais) e aderência (entre meios diferentes) deixa a superfície tracionada, e ela comporta-se como uma membrana tendida.
Uma membrana curva tendida aperta o que está dentro dela. Por isso, a pressão é maior do lado côncavo (dentro de uma gota). É a equação de Laplace.
Junto a uma parede sólida, a “membrana” agarra-se à parede (água: aderência > coesão) e puxa a coluna de líquido para cima. Se a coesão ganhar (mercúrio), a coluna desce. Isto é a capilaridade.
A tensão superficial explica também a agulha de aço a flutuar, os insetos que andam sobre a água e a forma das gotas e bolhas.
Armadilha
Gota vs bolha: uma gota tem uma interface, pi=4σ/D. Uma bolha (película de água com ar dos dois lados) tem duas, pi=8σ/D (Prob 1.1).
As fórmulas usam o diâmetroD; com o raio, 4σ/D=2σ/R. Não trocar.
Se θ não for dado: água em vidro limpo, θ≈0° (cosθ=1); mercúrio, θ≈180° (livro). Os slides só dizem θ>90°.
Na Hidráulica despreza-se a capilaridade em tubos com D>15 mm (para D=15 mm, δh≈2 mm). Abaixo disso não é desprezável, por exemplo em piezómetros finos e em solos granulares finos.
σdiminui com a temperatura (água: 0,0736 N/m a 20 °C → 0,060 N/m a 100 °C).
Tensão superficial, Laplace e capilaridade (Cardoso et al., §1.6.3)
Tensão superficial σ: força tangencial à interface, aplicada na linha de fronteira, por unidade de comprimento [N/m].
Equação de (Young-)Laplace. O equilíbrio de um elemento δS=δℓ1δℓ2 da interface curva, com raios principais R1 e R2, dá:
Δp=salto de pressa˜opcoˆncavo−pconvexo=σ(R11+R21)⎩⎨⎧esfera (R1=R2=R):cilindro (R2→∞):Δp=R2σ=D4σΔp=RσCapilaridade: fenómeno associado às tensões superficiais em interfaces líquido-sólido. O ângulo de contacto θ decide o sentido:
Coesão vs aderência
θ
Menisco
Coluna
Água
coesão < aderência (“molha”)
<90°
côncavo
sobe
Mercúrio
coesão > aderência (“não molha”)
>90°
convexo
desce
O equilíbrio vertical da coluna (força de tensão superficial no perímetro πD = peso da coluna) dá:
tensa˜o superficialσπDcosθ=peso da colunaγ4πD2δh⟹δh=γD4σcosθ
(despreza-se o volume do menisco). Com θ>90°, cosθ<0 e δh<0: é uma depressão.
Passos para problemas de tensão superficial
Isolar um corpo: meia gota ou meia bolha (corte pelo plano diametral), a coluna capilar, ou a agulha.
Força de tensão superficial = σ × comprimento da linha de contacto × (cos do ângulo, para tirar a componente útil). Numa bolha, contar as duas interfaces.
Equilibrar com a força de pressão (pressão × área projetada no plano de corte) ou com o peso.
Resolver em ordem à incógnita e verificar as unidades (σ em N/m).
Quando usar
Sinais no enunciado: “gota”, “bolha”, “tubo capilar”, “diâmetro de 1 mm”, “ascensão/depressão capilar”, “agulha que flutua”, ou um valor de σ (0,0736 N/m) nos dados.
Exercício resolvido (Ex 1.2 do livro / Aula 01B)
Calcule a pressão no interior de uma gota de água esférica com 1 mm de diâmetro. A ação da gravidade é desprezável (ou o peso é equilibrado por uma ação externa); σ=0,0736 N/m; a pressão exterior é nula.
Resolução passo-a-passo
1. Corpo livre: meia gota, cortada pelo plano diametral. No círculo de corte atua a pressão interior pi; ao longo do perímetro πD atua a tensão superficial σ, que segura o hemisfério.
2. Equilíbrio segundo a normal ao plano de corte:pi4πD2−σπD=0⇒pi=D4σ3. Valor:pi=0,0014×0,0736⇒pi=294,4Pa(pressa˜o relativa aˋ exterior)Verificação: Laplace com R1=R2=D/2 dá Δp=2σ/R=4σ/D. ✔ (resolução do livro)
Lição
O corte pelo plano diametral transforma um problema 3D num equilíbrio de forças simples: pressão × área projetada = σ × perímetro. Quanto mais pequena a gota, maior a pressão interior (∝1/D).
Exercício resolvido (Ex 1.3 do livro / Aula 01B)
Calcule a subida capilarδh da água num tubo de vidro com D=1 mm, sabendo que σ=0,0736 N/m e γ=9800 N/m³. O ângulo θ não é dado.
Resolução passo-a-passo
1. Ângulo de contacto: água em vidro limpo → θ≈0°, cosθ≈1.
2. Equilíbrio vertical da coluna elevada:σπDcosθ=γ4πD2δh⇒δh=γD4σcosθ3. Valor:δh=9800×0,0014×0,0736=9,80,2944⇒δh≈0,030m=30mm(resolução do livro) O livro usa γ=9792 N/m³ (água a 20 °C) e obtém h=0,0301 m.
4. Variante do livro (mercúrio):d=13,6, σ=0,48 N/m, θ≈180° → a coluna desceh=13,6×9810×0,0014×0,48=0,0144 m.
Lição
Num tubo de 1 mm a água sobe 3 cm, o que é enorme face ao diâmetro. Como δh∝1/D, para D=15 mm já só sobe ~2 mm. Daqui vem a regra “capilaridade desprezável para D>15 mm”. Num piezómetro fino, a leitura viria errada por este valor.
Exercício resolvido (Prob 1.1 do livro)
Determine a sobrepressão pi no interior de uma bolha de água (película fina com ar dos dois lados) de diâmetro D, relativamente à atmosfera. Despreze a gravidade e a espessura da película.
Resolução passo-a-passo
1. Duas interfaces: a película tem uma superfície interior e uma exterior, ambas com raio ≈ D/2 (espessura desprezável). Cada uma contribui com σπD no perímetro de corte.
2. Equilíbrio da meia bolha:pi4πD2=2σπD⇒pi=D8σ3. Verificação por Laplace:2×R2σ=R4σ=D8σ. ✔
[resolução própria], que bate com a solução do livro (8σ/D).
Lição
Antes de escrever o equilíbrio, contar as interfaces. Uma bolha de sabão tem o dobro da sobrepressão de uma gota com o mesmo diâmetro.
Exercício resolvido (Prob 1.2 do livro)
Uma agulha cilíndrica de diâmetro D, comprimento ℓ≫D e densidade da é pousada horizontalmente sobre água. Despreze a impulsão.
a) Qual é o diâmetro máximo para que não afunde (θ=0)?
b) Calcule-o para aço (d=7,84) em água a 20 °C.
Resolução passo-a-passo
1. Peso da agulha:G=daρg4πD2ℓ.
2. Tensão superficial: atua ao longo das duas linhas de contacto de comprimento ℓ (as pontas desprezam-se, porque ℓ≫D). Com θ=0, a força é vertical: F=2σℓ.
3. a) Equilíbrio limite F=G:2σℓ=daρg4πD2ℓ⇒Dmax=πdaρg8σ4. b) Valor:Dmax=π×7,84×98108×0,0736=2,44×10−6⇒Dmax≈1,56mm[resolução própria]. O livro dá 1,55 mm. A diferença vem do valor de σ: o livro deve usar ~0,0728 N/m, da sua tabela.
Lição
A tensão superficial só segura objetos pequenos: a força cresce com ℓ e o peso com D2ℓ, logo há sempre um D máximo. O método é o mesmo da coluna capilar: σ × comprimento de contacto = peso.
1.7 Viscosidade
Ideia
A viscosidade é o atrito interno do fluido. Pense num baralho de cartas empurrado pela carta de cima: cada camada de fluido arrasta a camada de baixo, e a resistência a esse deslizamento é a viscosidade.
Princípio de aderência (livro): o fluido junto a uma parede sólida cola-se a ela, sem velocidade relativa. Entre uma placa fixa e uma móvel, a velocidade passa de 0 a U, e o perfil é linear (escoamento de Couette).
Num fluido newtoniano (água, ar, óleo), a tensão tangencial é proporcional à rapidez com que o fluido se deforma: duplica-se a velocidade, duplica-se a força.
Armadilha
μ e νdiminuem significativamente com a temperatura (água: 1,73×10−3 Pa·s a 0 °C, 1×10−3 a 20 °C, 0,28×10−3 a 100 °C). Usar o valor da temperatura do enunciado.
Não confundirμ [Pa·s] com ν=μ/ρ [m²/s].
du/dy=U/hsó se o perfil for linear (o enunciado di-lo). y é a coordenada normal ao escoamento; o livro chama-lhe z.
τ é uma tensão: a força na placa é F=τS.
Lei de Newton da viscosidade (Cardoso et al., §1.6.4)
Dedução (livro). Entre duas placas, em δt a camada de cima avança mais δℓ=δuδt do que a de baixo. A deformação angular é δα≈δℓ/δz, logo dtdα=dzdu: o gradiente de velocidade é a velocidade de deformação.
tensa˜o tangencial [Pa]τ=viscosidade dinaˆmicaμvelocidade de deformac¸a˜o dθ/dt[s−1]dyduviscosidade cinemaˊticaν=ρμ
[μ]=ML−1T−1 (Pa·s = N s/m² = kg m⁻¹ s⁻¹); [ν]=L2T−1 (m²/s). O ν não tem massa nas dimensões, daí o nome cinemática.
Valores (água, 20 °C):μ≈1×10−3 Pa·s, ν≈10−6 m²/s. A 30 °C, μ=0,80×10−3 Pa·s (livro).
Fluido newtoniano: a tensão tangencial é proporcional à velocidade de deformação, com constante de proporcionalidade μ (o “coeficiente de viscosidade dinâmica”, ou só “viscosidade”). No gráfico τ vs dθ/dt é uma reta pela origem, com inclinação μ: óleo > água > ar.
Fluidos não-newtonianos (slide 17):
Tipo
Curva τ vs du/dy
Exemplo
Newtoniano
reta pela origem
água, ar, óleo
Dilatante (shear thickening)
côncava para cima: fica mais “viscoso” quanto mais depressa se deforma
água + amido de milho
Pseudoplástico (shear thinning)
côncava para baixo: fica mais “fluido”
tinta látex
Plástico de Bingham
reta que só começa depois de uma tensão de cedência
pasta de dentes
Passos para problemas de placas (escoamento de Couette)
Perfil de velocidade: se for linear entre u=0 (placa fixa) e u=U (placa móvel) à distância h, então du/dy=U/h.
Tensão:τ=μdu/dy; ou, em ordem a μ: μ=τ/(du/dy).
Força na placa de área S: F=τS (somar as faces, se a placa tiver fluido dos dois lados).
Viscosidade cinemática, se pedida: ν=μ/ρ.
Várias camadas: cada camada tem o seu perfil linear; a placa móvel em equilíbrio impõe a relação entre as tensões das camadas.
Quando usar
Sinais no enunciado: “placa móvel”, “perfil de velocidade linear”, “fluido viscoso entre placas”, “força por unidade de área”, “calcule a viscosidade”.
Exercício resolvido (Ex 1.4 do livro)
Duas placas paralelas distam 2 mm, com água a 30 °C entre elas (μ=0,80×10−3 Pa·s, ρ=996 kg/m³). A placa inferior está parada e a superior move-se a 0,30 m/s. A distribuição de velocidades é linear. Calcule a tensão tangencial nas placas.
Resolução passo-a-passo
1. Gradiente de velocidade:dzdu=0,0020,30=150s−12. Lei de Newton:τ=μdzdu=0,80×10−3×150⇒τ=0,12N/m2(resolução do livro) A massa volúmica não é necessária: é um dado a mais.
Lição
Com o perfil linear, du/dz é constante, e por isso τ é igual em todo o fluido, também nas duas placas. Os dados que sobram (aqui o ρ) são normais: escolhe-se a fórmula primeiro e só depois se vai buscar os dados de que precisa.
Exercício resolvido (Prob 1.3 do livro / Aula 01B)
Um fluido viscoso escoa entre uma placa imóvel (inferior) e uma placa móvel (superior). Na placa superior aplica-se, no sentido do movimento, uma força por unidade de área τ=1,5×10−2 Pa. A distribuição vertical da velocidade é linear, a distância entre placas é h=0,02 m e a velocidade da placa superior é u1=0,1 m/s. Calcule:
a) a viscosidade do fluido;
b) a viscosidade cinemática, para ρ=1300 kg/m³.
Resolução passo-a-passo
1. Gradiente de velocidade (perfil linear):dzdu=hu1=0,020,1=5s−12. a) Viscosidade dinâmica:μ=du/dzτ=51,5×10−2⇒μ=3,0×10−3Pa⋅s3. b) Viscosidade cinemática:ν=ρμ=13003,0×10−3⇒ν=2,31×10−6m2/s[resolução própria]. ⚠️ O livro imprime “μ = 3,3×10⁻² kg m⁻¹ s⁻¹; ν = 2,54×10⁻⁵ m²/s”. Esses valores são coerentes entre si, mas não batem com os dados do enunciado: é uma gralha do livro. Fica o valor calculado acima.
Lição
É o problema de Couette ao contrário: dá-se a tensão e pede-se μ. Ordem de grandeza: μ=3×10−3 Pa·s é cerca de 3 vezes a viscosidade da água, o que é plausível para um líquido com ρ=1300 kg/m³.
Exercício resolvido (Prob 1.4 do livro)
Uma placa move-se a velocidade constante u entre duas placas fixas paralelas, sujeita apenas à força F. De um lado há uma camada de espessura h1 e viscosidade μ1; do outro, espessura h2 e viscosidade μ2. Os perfis são lineares e as tensões tangenciais nas duas faces da placa móvel são iguais. Que relação existe entre as viscosidades e as espessuras?
Resolução passo-a-passo
1. Tensão em cada camada (perfil linear de 0 a u):
τ1=μ1h1u,τ2=μ2h2u2. Impor τ1=τ2:h1μ1=h2μ2⇒μ2μ1=h2h13. Força:F=(τ1+τ2)S=2τS (as duas faces resistem no mesmo sentido).
[resolução própria], que bate com a solução do livro.
Lição
Com várias camadas, escreve-se uma lei de Newton por camada, cada uma com o seu μ e o seu h, e liga-se tudo pelo equilíbrio da placa. O fluido mais viscoso tem de estar na camada mais espessa para dar a mesma tensão.
1.8 Tensão de saturação do vapor e cavitação
Ideia
Um líquido ferve quando a pressão desce até à sua tensão de vapor, e não só quando aquece. A 20 °C a água ferve se a pressão absoluta descer a ~2,3 kPa. Por isso a água ferve abaixo de 100 °C em altitude, e a panela de pressão cozinha mais depressa: a ~2,5 patm, só ferve a 125–130 °C.
Armadilha
tv é uma pressão absoluta. Para saber se há risco de vaporização, compara-se a pressão absoluta local com tv, e não a relativa. Uma pressão relativa de −9 m c.a. corresponde a uma absoluta de ≈1,3 m c.a. ≈ 13 kPa, que ainda está acima de tv (2,3 kPa a 20 °C). Ver 2.3.
Tensão de saturação do vapor (Cardoso et al., §1.6.5)
Definição:tv de um líquido é a pressão para a qual esse líquido passa ao estado gasoso, a uma dada temperatura. Aumenta significativamente com a temperatura (crescimento exponencial).
Temperatura da água
tv
0 °C
610 Pa
~10 °C
≈ 1001patm
20 °C
2330 Pa
100 °C
patm (≈ 1×10⁵ Pa)
120 °C
2,5×10⁵ Pa
125–130 °C
≈ 2,5 patm (panela de pressão)
Cavitação (livro): quando, num escoamento, a pressão absoluta local desce até tv, formam-se bolhas de vapor. São arrastadas para jusante e colapsam onde a pressão volta a subir. O colapso danifica condutas, válvulas e rodas de turbinas e bombas.
Quando usar
Sinais: pontos altos de sifões, aspiração de bombas, depressões grandes (pressões relativas muito negativas). Verificar sempre que pabs>tv. Aqui fica só a ideia; a análise de cavitação em instalações é matéria posterior ao MAP1.
1.9 Variação das propriedades com a temperatura
Síntese (slides 9–18; tabelas completas na contracapa do livro, que não está na cópia)
Num teste, a pergunta típica é qualitativa: “o que acontece a X quando a água aquece?”. A mnemónica: a massa e a rigidez quase não mudam; a “pele” e o “atrito” enfraquecem; a vontade de ferver dispara.
TABLE WITHOUT ID link(file.link, file.name) AS "Nota", date AS "Data", status AS "Estado"FROM "2.Técnico/2º Ano/1Semestre/Hidraulica I"WHERE (type = "note" OR type = "project") AND file.name != this.file.nameSORT date DESC