📘 Resumo — CDI-II Exame Final (Fichas 7–11)

Parent project: Cálculo Diferencial e Integral II

Âmbito desta nota

Matéria do exame: a partir da Ficha 7 das aulas práticas. Cobre integração múltipla, mudança de variáveis, integrais de linha e teoremas integrais (Green). A matéria da Ficha 6 (extremos livres e condicionados) ficou fora do exame — está no Resumo do MAP2. Cada secção tem: teoria explicada → passos do método → exercício resolvido (dobrável) → erros comuns. Tenta resolver cada exercício antes de abrir a resolução.


🗺️ Mapa da Matéria

FichaTemaFerramenta central
7Integrais múltiplosTeorema de Fubini, troca de ordem
8Mudança de variáveisJacobiano, polares/cilíndricas/esféricas, Regra de Leibniz
9Integrais de linhaCampos escalares e vetoriais (trabalho)
10Campos conservativosCampos fechados, potencial, TFC para integrais de linha
11Teoremas integrais no planoTeorema de Green, homotopia

Fio condutor de toda a matéria

As Fichas 7–8 são integrar regiões (medir volumes/massas). As Fichas 9–11 são integrar ao longo de curvas (trabalho), culminando no Teorema de Green, que liga um integral de linha (fronteira) a um integral duplo (interior) — é a ponte entre as duas metades. (A diferenciação/otimização da Ficha 6 entrou no MAP2, não no exame.)


∬ Ficha 7 — Teorema de Fubini

Ideia

Um integral em 2D/3D calcula-se iterando integrais de 1 variável: integra-se primeiro numa variável (tratando as outras como constantes) e depois na seguinte. Fubini garante que, em condições razoáveis, a ordem é livre — e escolher bem a ordem pode tornar um integral impossível em trivial.

Porquê funciona — "somar por fatias"

Pensa no integral como somar todos os valores de sobre o retângulo. Fubini é apenas a associatividade da soma: em vez de somar tudo de uma vez, somas primeiro ao longo de cada fatia vertical (com fixo, varrendo ) — obténs uma área que depende de — e depois somas essas áreas ao varrer . Geometricamente, é a área da secção do sólido sob o gráfico cortada pelo plano vertical de abcissa , e acumula essas secções → o volume total. Trocar a ordem é somar por fatias horizontais em vez de verticais; o total é o mesmo.

Em regiões gerais, os limites internos dependem da variável externa

Numa região não-retangular, ao fixar a variável externa a “fatia” tem extremos que são funções dela. Regra prática: o integral externo tem sempre limites constantes (números); o interno pode ter limites que dependem da variável de fora. Se aparecer a variável interna nos limites de fora, trocaste a ordem por engano.

Teorema de Fubini (retângulo)

Em regiões gerais, os limites internos passam a ser funções da variável externa:

  • Tipo I (fatias verticais):
  • Tipo II (fatias horizontais):

Passos para trocar a ordem de integração

  1. Desenhar a região a partir dos limites dados (é o passo que mais evita erros).
  2. Reler a região na outra direção (se estava por fatias verticais, descrever por fatias horizontais).
  3. Reescrever os limites; o integrando não muda.
  4. Integrar na nova ordem.

Quando trocar a ordem?

Quando a primitiva interna não existe em termos elementares na ordem dada — sinais típicos: , , , . Trocar costuma fazer aparecer um fator que torna a primitiva imediata.

Exercício resolvido (Ficha 7, ex. 2a)

Invertendo a ordem, calcule .

Exercício resolvido (região geral nas duas ordens)

Calcule com .

Integrais triplos & centróides

  • Volume: . Escolher a ordem que dá limites simples; projetar o sólido sobre o plano conveniente.
  • Centróide: (idem ).
  • Com densidade : trocar por massa e por no numerador.

🔄 Ficha 8 — Mudança de Variáveis + Regra de Leibniz

Porquê mudar de variáveis?

Uma região circular descrita em tem limites com raízes (); em coordenadas polares vira um retângulo . Mudar de variáveis endireita a geometria — ao custo de multiplicar pelo Jacobiano, que corrige a distorção de área/volume.

Porquê aparece o Jacobiano (a ideia certa)

É a versão em várias variáveis da substituição de Cálculo 1: lá, obriga a — o fator converte “comprimento em ” para “comprimento em ”. Em 2D/3D, a transformação deforma um pequeno retângulo num pequeno paralelogramo em , cuja área é . O Jacobiano é exatamente o fator de conversão de área/volume local. Por isso vai sempre em módulo: área é positiva. Vê a mudança como um dicionário que traduz três coisas: o integrando , a região (reescrever cada desigualdade) e o elemento de área .

Fórmula geral

Usar sempre o módulo .

Jacobianos a decorar

SistemaSubstituição
Polares
Polares elípticas
Cilíndricas
Esféricas

Como escolher a mudança

  • Região com (círculo/disco/setor) → polares; se for elipse → polares elípticas.
  • Centro deslocado → transladar primeiro.
  • Sólido com simetria axial → cilíndricas; com simetria esférica/cones → esféricas.
  • Região definida por combinações como , → mudança “à medida”: calcula-se e usa-se .

Quando se usa o Jacobiano — e quando NÃO

O Jacobiano é o fator que converte o elemento de área/volume ao mudar as variáveis de integração de uma região. Só aparece nesse contexto. A confusão típica é querer usá-lo (ou esquecê-lo) onde não pertence — a regra é olhar para o tipo de integral:

SituaçãoFator a usarJacobiano?
Integral múltiplo com mudança de coordenadas (polares, cilíndricas, esféricas, “à medida”) (, , …)✅ Sim
Integral múltiplo que fica em cartesianas (não mudas de variável) direto❌ Não
Integral de linha escalar ❌ Não
Integral de linha vetorial (trabalho) ❌ Não
Regra de Leibniz (derivar sob o integral) (+ termos das pontas)❌ Não

Ideia-chave: o Jacobiano é para trocar as coordenadas de um domínio -dimensional (, ). Num integral de linha não há mudança de variáveis: há uma parametrização de uma curva (objeto 1D), e o “fator de conversão” certo é (escalar) ou o produto interno com (vetorial) — nunca . O é, de facto, o análogo 1D do Jacobiano (tal como na substituição de Cálculo 1).

Regra prática: se vês ou (integral de área/volume) → mete ; se vês ou (integral ao longo de uma curva) → mete ou , sem Jacobiano.

Exercício resolvido (Ficha 8, ex. 2a)

Calcule .

Momento de inércia

Relativo ao eixo : (distância ao quadrado ao eixo, vezes a densidade).

Regra de Leibniz

O problema que resolve

Aparece quando uma função é definida por um integral que depende de um parâmetro : . Queremos sem calcular o integral primeiro (muitas vezes nem tem primitiva elementar). A ideia: pode variar com por duas razões — porque o integrando muda com , e porque os limites se mexem. Leibniz soma essas contribuições.

Regra de Leibniz (derivar sob o sinal de integral)

  • Os dois primeiros termos vêm dos limites variáveis (regra da cadeia nas pontas — é o TFC: a taxa a que se ganha/perde área ao mover cada extremo é “valor da função na ponta × velocidade da ponta”).
  • O integral final é da derivada parcial do integrando em ordem ao parâmetro.
  • Caso simples (limites constantes): , sobra só — “derivar para dentro do integral”.

Exercício resolvido (limites variáveis — fórmula completa)

Calcule para .

Quando o parâmetro está também na REGIÃO (integral duplo)

Se aparece no integrando e nos limites de uma região 2D, não dá para aplicar Leibniz diretamente. Truque: definir separando as duas dependências (um para a região, um para o integrando), notar que e usar a regra da cadeia: , onde sai do TFC e da Leibniz.


〰️ Ficha 9 — Integrais de Linha

Dois tipos de integral de linha

  • Campo escalar (): “soma” uma grandeza ao longo do fio — dá comprimento, massa, centro de massa. Não depende do sentido.
  • Campo vetorial (): dá o trabalho de uma força ao longo do caminho. Depende do sentido (orientação).

O significado: a imagem do "fio"

Em vez de integrar sobre uma região plana, integra-se ao longo de uma curva — pensa nela como um fio físico no espaço, e na parametrização como a maneira de o percorrer (a “posição no instante ”, com ).

  • = pedacinho de fio. é a velocidade (vetor tangente) e é a rapidez; logo é o comprimento real do bocadinho de fio percorrido enquanto o parâmetro avança . É a conversão de “tempo de parâmetro ” → “comprimento no fio”. (É também o motivo de não haver Jacobiano aqui — ver o aviso na Ficha 8: numa curva o fator de conversão é , não .)
  • Campo escalar = somar ao longo do fio. Se é a densidade do fio (massa por unidade de comprimento), então é a massa de um pedacinho e o integral soma tudo → massa total. Casos: dá o comprimento do fio; dá a abcissa do centro de massa; dá o momento de inércia. Como estás só a somar bocados do fio físico, o sentido em que o percorres é indiferente.
  • Campo vetorial = trabalho. Agora é uma força (um vetor em cada ponto) e é o deslocamento (vetorial) do pedacinho. O produto interno mede só a parte da força alinhada com o movimento — a componente perpendicular não realiza trabalho. Somando ao longo do fio → trabalho total. Inverter o sentido inverte , logo troca o sinal: é por isso que o trabalho depende da orientação.

Fórmulas

Comprimento:

Campo escalar (massa, centro de massa, inércia): Campo vetorial (trabalho):

Passos (trabalho)

  1. Parametrizar a curva , (atenção ao sentido pedido).
  2. Calcular .
  3. Compor o campo: .
  4. Produto interno e integrar em .

Parametrizar interseções de superfícies

; depois obter da outra equação. Para orientação “anti-horária vista de cima”, confirmar que crescente roda no sentido certo.

Caminho por troços (aditividade) — poupa trabalho

Se a curva é uma poligonal/fronteira de várias arestas, não parametrizes tudo de uma vez: parte em troços e soma . Dois atalhos:

  • num troço onde é perpendicular ao caminho (), o integral é 0 — nem o calcules;
  • segmentos de reta parametrizam-se por , , logo (constante).

Exercício resolvido (Ficha 9, ex. 4a)

Trabalho do campo ao longo de , .


♻️ Ficha 10 — Campos Conservativos e TFC para Integrais de Linha

A grande simplificação

Se um campo é gradiente de um potencial , o trabalho deixa de depender do caminho — só dos extremos. Calcular um integral de linha complicado reduz-se a avaliar em 2 pontos. Por isso, antes de parametrizar, testa se o campo é conservativo.

Fechado vs. Conservativo

  • Fechado (condição necessária): as derivadas cruzadas coincidem.
    • 2D: .
    • 3D: .
  • Conservativo (gradiente): existe com .
  • Conservativo fechado. O recíproco só vale se o domínio for simplesmente conexo (sem buracos).

Teorema Fundamental do Cálculo para integrais de linha

Consequências:

  • Trabalho independente do caminho.
  • Em caminho fechado, trabalho (se conservativo no domínio).

Passos para encontrar o potencial

  1. Confirmar que o campo é fechado (derivadas cruzadas) e o domínio simplesmente conexo.
  2. Integrar em ordem a → (a “constante” é função das outras variáveis).
  3. Derivar esse em ordem a e igualar a para descobrir ; repetir para .
  4. Juntar tudo: .

Exercício resolvido (Ficha 10, ex. 1d)

O campo é conservativo? Em caso afirmativo, ache um potencial.

Campos com singularidade — o caso ("ralo da banheira")

Este campo é fechado mas NÃO conservativo em (o domínio tem um buraco na origem).

  • Trabalho numa circunferência que envolve a origem (×nº de voltas, com sinal).
  • Numa curva fechada que não envolve a origem . Não apliques o TFC aqui — não há potencial global.

🟢 Ficha 11 — Homotopia e Teorema de Green

O que faz o Teorema de Green

Converte um integral de linha sobre a fronteira num integral duplo sobre o interior (e vice-versa). Útil em ambos os sentidos: ou a fronteira é difícil e calcula-se o interior, ou o interior é difícil e usa-se a fronteira (ex.: áreas).

É um Teorema Fundamental do Cálculo

Tal como troca uma derivada no interior por valores na fronteira, Green troca a “derivada” integrada na região pelo campo somado ao longo da fronteira. A quantidade é a rotação (vorticidade) do campo: mede o quanto ele “roda” localmente. Green diz que toda a rotação acumulada no interior se “lê” na circulação em torno da fronteira. É por isso que um campo fechado () dá circulação nula em qualquer fronteira que não encerre buracos.

Teorema de Green

Para com fronteira orientada positivamente (anti-horário, região à esquerda):

Áreas via Green

Passos

  1. Verificar que é em todo (sem singularidades lá dentro).
  2. Calcular .
  3. Integrar essa quantidade sobre (muitas vezes mais fácil que a linha).
  4. Conferir a orientação; se a curva for horária, trocar o sinal.

Exercício resolvido (Ficha 11, ex. 1)

e . Trabalho ao longo de no sentido anti-horário.

Exercício resolvido (Green com singularidade — "recortar o buraco")

Calcule o trabalho de ao longo da elipse , no sentido direto.

O que é "deformar um caminho" (homotopia)

Duas curvas (com os mesmos extremos, ou ambas fechadas) são homotópicas num domínio se uma se pode deformar continuamente na outra sem sair de . Formalmente há uma “animação” onde é o “tempo”: em vê-se a primeira curva, em a segunda, e todos os fotogramas intermédios ficam dentro de . A chave é sem sair de : num domínio com buraco, uma curva que envolve o buraco não se pode deformar numa que não o envolve — a deformação teria de “passar por cima” do buraco.

Teorema da invariância por homotopia

Se é fechado e , são homotópicas em , então Porquê: a homotopia desenha um “retângulo” no plano ; aplicar Green a esse retângulo, usando que é fechado, dá na diferença dos dois integrais. É a versão “deformável” do recorte do buraco que fizemos acima com Green.

  • Consequência prática: podes substituir qualquer curva por outra mais simples homotópica a ela (tipicamente uma circunferência à volta do buraco) sem mudar o integral.
  • Em inteiro (sem buracos) quaisquer duas curvas com os mesmos extremos são homotópicas → por isso aí fechado = conservativo.

Estratégia "soma de cargas" (várias singularidades)

  • Cada singularidade tem uma carga = trabalho do campo numa pequena circunferência à volta dela, no sentido direto (para transladado, a carga é ).
  • O trabalho numa curva fechada soma das cargas das singularidades que ela encerra, cada uma com sinal se a curva a rodeia no sentido direto e se no inverso (e ×nº de voltas).
  • Singularidades fora da curva não contam (contribuem , por homotopia a um ponto).

Curvas 3D que vivem num plano

Quando a curva está num plano (, , …), projeta/parametriza e reduz a um problema plano. Separa a parte conservativa (gradiente → 0 em curva fechada) da parte com singularidade (que dá o ).


🧭 Checklist de Estratégia — que ferramenta usar?

Sintoma do enunciadoFerramenta
Integral duplo/triplo, primitiva impossível na ordem dadaF7 — trocar ordem (Fubini)
Região circular/elíptica/esférica, no integrando ou regiãoF8 — polares/cilíndricas/esféricas
Derivar F8 — Regra de Leibniz
”trabalho ao longo de”, “massa do fio”, “comprimento”F9 — integrais de linha
”é conservativo?”, trabalho entre 2 pontos, caminho feioF10 — testar fechado + potencial + TFC
Curva fechada no planoF11 — Green
Campo fechado com singularidade / domínio com buracoF10–11 — homotopia, isolar

Erros a evitar (lê antes do exame)

  • Esquecer o módulo do Jacobiano.
  • Esquecer o fator (polares) ou (esféricas).
  • Aplicar o TFC a um campo fechado mas não conservativo (domínio não simplesmente conexo) → resultado errado.
  • Trocar o sinal por orientação errada (horário vs. anti-horário).
  • Em Green: usar a fórmula com uma singularidade dentro de (o campo tem de ser em todo — caso contrário, recortar à volta do buraco).
  • Esquecer de desenhar a região antes de trocar a ordem de integração.

📎 Recursos

Fichas e respostas

Enunciados: F7 · F8 · F9 · F10 · F11 Respostas: Resp7–Resp11 (mesma pasta). Exames antigos: Estudo EXAME/Exames_Anos_Anteriores/ (2023, 2024, 2025).

Notas relacionadas (Dataview)

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